A gestão Luizianne Lins está desgastada já há alguns anos, sua base aliada foi sempre instável e a manutenção da coalizão que a sustenta é incerta. E, mesmo que a aliança se mantenha, a administração de seu principal aliado - o governador Cid Gomes (PSB) - vive seu momento mais delicado, ainda no rescaldo da greve dos policiais militares. Em qualquer circunstância, as possibilidades de a oposição sair vitoriosa não podem ser desprezadas. Como O POVO mostrou ontem, as direções nacionais de PSDB e DEM fecharam acordo para garantir a aliança em capitais nordestinas. Em Fortaleza, já estaria fechada a coligação. Informações extraoficiais e não confirmadas apontavam Moroni Torgan como o candidato da chapa. A composição seria poderosíssima, sem dúvida. Garantiria ao ex-deputado pelo DEM tempo de televisão que ele jamais teve, em nenhuma de suas três tentativas de chegar ao Paço Municipal. Mas há um problema e tanto: acertaram as coisas por cima e esqueceram de combinar cá embaixo. As direções estaduais se queixam de não terem sido consultadas. O presidente do tucanato estadual, Marcos Cals, reafirma que o partido terá candidato, mesmo que Moroni esteja do outro lado. Esse tipo de desencontro costuma causar problemas – está aí Luizianne como prova maior. O próprio possível candidato não estaria resolvido a concorrer. Ele volta ao Brasil nos próximos meses, depois de alguns anos no Exterior. Nas vezes em que disputou, foi constantemente criticado por passar pouco tempo em Fortaleza. Agora, a reclamação será potencialmente ainda maior. Mesmo assim, considerada a indecisão do PT e a incerteza quanto à aliança com PSB e PMDB, Moroni é capaz de entrar na disputa como um dos favoritos. Sobretudo se tiver o PSDB ao seu lado.
COMO HÁ OITO ANOS
São múltiplos os fatores envolvidos no sucesso ou no fracasso de uma candidatura. Raramente um único elemento determina o resultado de uma eleição. O apoio governamental é sempre um desses diferenciais capazes de mudar o rumo de uma campanha. Todavia, a escolha do candidato - salvo em exceções extremas - costuma ser mais relevante ainda. Nesse sentido, há dois nomes realmente de peso colocados no cenário pré-eleitoral. Um deles é Moroni. O outro é Inácio Arruda (PCdoB). Caso sejam mesmo candidatos, eles largam nas pesquisas em melhor posição que qualquer outro dos pré-candidatos. É um fator superestimado e normalmente diz apenas o quão conhecidos são eles. De qualquer forma, seria uma eleição que começaria muito parecida com a de oito anos atrás, quando eles polarizaram toda a etapa inicial na disputa. No fim das contas, Inácio ficou pelo caminho e Moroni foi batido por Luizianne no segundo turno. Claro que também agora há margem para que outro nome volte a deixar ambos para trás, ainda mais diante da probabilidade de nenhum deles ter suporte das máquinas governistas. No entanto, em qualquer circunstância, caso confirmem as candidaturas, Inácio e Moroni não podem ser excluídos do rol dos favoritos para a Prefeitura. Sobretudo se permanecer a indefinição, a desarmonia e a instabilidade nas fileiras governistas.
A AVALIAÇÃO DA GESTÃO
O apoio da máquina governamental pode muito numa campanha, mas não pode tudo. As mais recentes informações acerca do desempenho da gestão Luizianne mostravam índices que vinham melhorando, mas permaneciam bem ruins. O Brasil vem de experiência recente de um governante que elegeu seu sucessor - no caso, sucessora - apenas com base no seu prestígio pessoal e no de sua administração. No entanto, Lula é muito mais exceção que regra na história política brasileira. Também é fato que, em 2008, o cenário negativo para Luizianne era similar ao atual e foi revertido na campanha. Mas há diferença considerável: naquela ocasião, ela própria buscava a reeleição. Desta vez, é uma prefeita cuja administração é muito questionada e que teve, na avaliação do público médio, mais momentos negativos que positivos. Se transferir voto já é complicado, apostar apenas no prestígio da gestão, nessas circunstâncias, é uma temeridade. Vale lembrar: quando a própria Luizianne representava sua administração, ela venceu no primeiro turno por diferença de 0,16 ponto percentual. Não foi o que se poderia chamar de um passeio. A oposição parece perdida. Mas pode sair vitoriosa, sim.
A GREVE DA POLÍCIA E A IRRESPONSABILIDADE
Não há razão no mundo que tenham os policiais militares em suas reivindicações que justifique a irresponsabilidade que custa vidas na Bahia. Claro que o governo tem sua dose de culpa. O diálogo com a tropa fracassou, a autoridade se esfarelou e o resultado foram corpos jogados em vias públicas. Contudo, há parcela de autodeterminação dos trabalhadores ao decidir entrar em greve. Devem assumir sua parcela de culpa - e ela é enorme. Agem totalmente fora da lei, como o fizeram os PMs do Ceará. Mais uma vez, fica demonstrado que há boas razões para que militares sejam proibidos de parar. O que aconteceu no Ceará já se dera em outros lugares. Com o sucesso aqui, era natural que se espalhasse com força maior. A questão é: onde isso irá parar? Sem que se atenue a ilegalidade - e o imperativo de haver punição e não mais se passar a mão na cabeça - há uma crise nacional na situação das polícias, que precisa ser resolvida, pelo bem da segurança pública.
Érico Firmo
ericofirmo@opovo.com.br
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