O poder dá muita coisa a quem o possui, mas também cobra preço que pode ser alto. Alguns lidam muito bem com isso, realizam-se no governo e têm dificuldade para dele se desvencilhar. O ex-presidente Lula é caso emblemático. Em outros casos, os conflitos são localizados. O governador Cid Gomes mostrou-se bastante abatido na época em que foi questionado por levar sua sogra em périplo pela Europa. Incomodou-se profundamente com a recente greve dos professores e viveu provavelmente seus piores dias no poder no começo deste ano, com a paralisação dos policiais militares. Na entrevista à TV O POVO, na semana passada, definiu o 3 de janeiro de 2012 como “talvez o dia mais longo da minha vida”. Questionado por um telespectador sobre se havia ficado magoado com a postura dos policiais, mencionou suas obrigações institucionais como impeditivo para responder, e disse que poderá falar sobre o assunto no dia em que escrever suas memórias. Nas entrelinhas, fica evidente o tamanho do impacto que aquele episódio teve sobre o governador. Para Luizianne Lins, a relação com o poder foi sempre intensa e conflituosa a maior parte do tempo. A prefeita teve sempre dificuldade para se enquadrar em alguns ritos do poder, atender a algumas expectativas sociais quanto ao seu comportamento pessoal, além de nem sempre reagir bem às cobranças por resultados administrativos que não conseguia mostrar. Na entrevista à jornalista Marcela Belchior, no O POVO de domingo, ela escancarou esses conflitos. O quanto o poder violentou sua vida pessoal, inviabilizou planos. Na conversa, ela falou que sai da Prefeitura inevitavelmente mais forte - resultado da luta diária. Mencionou também o desejo de “ser um indivíduo novamente”. Curioso constatar que, como Cid Gomes, ela pretende passar temporada fora do Brasil, ao fim de seu mandato. Em ambos os casos, um exílio voluntário. Em busca, talvez, de anonimato, de paz, de distanciamento de toda essa maluquice que é governar uma cidade e um Estado. Com tudo isso, ainda assim Luizianne cogita tentar voos ainda mais altos em 2014. Até concorrer a governadora.
Atestado de que o poder cobra alto preço, sim. Mas suas delícias podem compensar o sacrifício.
A VAIA E A POLÍTICA
Como linguagem, a vaia permanece atual como nunca. Ontem, conforme O POVO recordou, fez 70 anos que nem o sol foi poupado dela, em plena Praça do Ferreira. No Ceará, ela é diferente de em qualquer outra parte. Não só pela sonoridade – o “iei no lugar do convencional “bu”. A vaia cearense não apenas desaprova: ela desmoraliza, faz troça. Mais até que criticar, ela é, para o cearense, um ato de mangar. Na política, então, é quase onipresente. Dificilmente algum homem público que já tenha subido num palanque não conheceu o sentimento de ser desaprovado por parte do público. Até o ultrapopular Lula foi “homenageado”, ao ter o nome citado na abertura dos Jogos Panamericanos de 2007. Constrangido, nem o discurso fez. Cid Gomes, em sua Sobral, também recebeu apupos dos conterrâneos, há poucos meses. Na última festa de Réveillon, sobrou para a prefeita Luizianne Lins – que assegurou que a vaia não foi lá tão grande assim.
A VERDADE QUE A VAIA REVELA
Nelson Rodrigues era talvez o entusiasta maior das vaias. Na estreia de Perdoa-me por me traíres, recebeu monumental reprovação. Foi chamado de tarado e repetia que um vereador puxou o revólver no camarote, indignado que estava. O dramaturgo reagiu. Quis avançar sobre a plateia. Contido pelo elenco, ficou a gritar com o próprio público: “Zebus, zebus”. Contudo, dizia que aquele foi o momento máximo de sua vida dramática. “Foi uma euforia, e repito: uma plenitude autoral que não sentira antes e não vou sentir nunca mais”. E explicava: uma peça que arranca tão grande vaia provocou profundo impacto sobre seu público. Afinal, para ele, a plateia só era respeitosa quando não entendia nada. “A grande vaia é mil vezes mais forte, mais poderosa, mais nobre que a grande apoteose. Os admiradores corrompem”, acrescentava.
É fato que Nelson sempre foi de fazer tipo. Além disso, há diferença considerável entre a vaia à arte e à política: a primeira pode ser motivada pelo incômodo, o desconforto, a novidade que são inerentes à criação. Na política, a vaia pode ser simplesmente resultado da incompetência, falta de ética e outros atributos tão recorrentes. Mas, pelo menos um elogio é comum a qualquer vaia: ela quase sempre é verdadeira. Se o aplauso muitas vezes é falso, o apupo raramente não é sincero e não parte do fundo da alma. Ao político, então, o aplauso é geralmente dotado do mais deslavado cinismo. Alguns provavelmente são aplaudidos diariamente, sem nunca ter recebido ovação verdadeiramente honesta de uma pessoa sequer. Tal sujeito, ao ouvir a primeira vaia, pode estar certo de estar se encontrando com a sinceridade no sentimento que desperta. Não deixa de ser uma forma de revelação.
Érico Firmo
Jornalista, editor-adjunto do núcleo de Conjuntura do O POVO ericofirmo@opovo.com.br
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