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28/01/2012 - 01h30

Negociação com PMDB será dura para o PT

O tom do senador Eunício Oliveira ao se referir à administração Luizianne Lins dá a exata noção do quão dura será a negociação entre PMDB e PT para as eleições em Fortaleza. O PSB é o parceiro mais importante, sem dúvida. Principalmente em função de Cid Gomes. Se o governador não estiver ao lado do candidato petista, é líquido e certo que os peemedebistas também não estarão. Por outro lado, o principal cacique do PMDB cearense deixou claro que o acerto com o PSB não o levará a reboque para os braços do PT. Os peemedebistas têm consciência do seu peso político. Ao lado dos petistas, representam o maior tempo na propaganda de rádio e televisão. Caso saiam juntos, praticamente inviabilizam outros concorrentes. Separados, garantem dose considerável de competitividade ao candidato que lançarem ou apoiarem. Portanto, o nível de acirramento da campanha em Fortaleza em 2012 está diretamente relacionado ao entendimento ou não entre as duas legendas que governam o Brasil e vivem em pé de guerra em todas as esferas.

O SIGNIFICADO DO RESPEITO QUE EUNÍCIO COBRA

 

Pelas declarações e, sobretudo, pelo estilo de fazer política, Eunício deseja manter a aliança. “O PMDB é aliancista por natureza”, destacou, na entrevista ao Debates do Povo, ontem, na rádio O POVO/CBN. Durante o programa, ficaram claras as indicações do que irá balizar as conversas. E o partido sabe seu peso e irá se valorizar bastante nas negociações. “Quero manutenção da aliança com respeito ao PMDB”, salientou o senador, em mais de uma oportunidade durante o programa de rádio. Não deixou claro o que significa esse respeito cobrado, mas descartou o acordo em troca de cargos. “Se não houver respeito adequado aos aliados, cada um toma seu rumo”, alertou. Ele enfatizou que a escolha do candidato será determinante na decisão. “O PMDB não vai apoiar poste”. E acrescentou: “O PMDB não vai se entregar por se entregar a ninguém”.

OLHAR CRÍTICO SOBRE A GESTÃO LUIZIANNE

 

Durante o programa na rádio O POVO/CBN, Eunício foi questionado sobre sua avaliação acerca do desempenho administrativo de Luizianne. A resposta procurou ser amena, mas não foi capaz de esconder a decepção. “Entendo que ela poderia ter feito muito mais”. O senador citou a aliança com a esfera de poder nacional e a estadual como fator para que a prefeita tivesse mostrado mais serviço. No entanto, elogiou o trabalho realizado nos últimos meses pela administração. “Louvo o que ela tem feito desde o ano passado para que a gestão dela seja reconhecida pela população”, disse, percebendo guinada no apagar das luzes do mandato. Ele não se exime de sua cota da responsabilidade. Lembrou que apoiou a reeleição da prefeita e chegou a afirmar que “a gente tinha de ter feito muito mais”. Mesmo com todas as ressalvas, está longe do que se pode chamar de depoimento de quem aprova o governo. Não é muito diferente do que a maioria dos aliados e mesmo alguns petistas dizem reservadamente. Mas é discurso que poucos integrantes da base de apoio ousam dizer em público.

 

ACORDO DE PROCEDIMENTO COM CID

 

Eunício citou, na mesma entrevista, o que chamou de “acordo de procedimento” com Cid Gomes. Segundo ele, os dois se comprometeram a conversar um com o outro, tão logo tomem qualquer decisão em relação à disputa municipal e antes de anunciar publicamente o rumo a ser seguido. O que não significa que seguirão necessariamente o mesmo caminho, fez questão de deixar muito claro. “Não quer dizer que vamos morrer aliados. Casamento só existe enquanto as pessoas casadas, no intuito de amor eterno, se entendem”. A propósito, Eunício deixou clara sua disposição para disputar o Governo do Estado em 2014.

A LEI, A VIOLÊNCIA E O ESTÁGIO CIVILIZATÓRIO

 

A semana política foi cheia e tumultuada: definição da nova lista de pré-candidatos do PT, a entrevista de Cid Gomes à TV O POVO, o terremoto na direção do Dnocs. Com tanta turbulência, não deu nem tempo de comentar mais um desses episódios, o que faço agora. Nada justifica a selvageria no Pinheirinho. Trata-se de um dos mais brutais e absurdos exemplos da insensibilidade governamental. A frieza dos burocratas não tem todas as respostas para a administração pública e, muitas vezes, converte-se na negação da boa política. E a tragédia se consuma quando a tecnocracia é acionada para resolver conflitos com os setores mais pobres, vulneráveis e que, é fato, vivem à margem da lei. É evidente que as normas legais não podem ser opcionais. São parte do consenso social e aspecto definidor da vida em sociedade. Contudo, já foi dito aqui: as leis não são finalidades em si. Mais importante que elas é o princípio de justiça que fundamenta a existência delas. As pessoas não ocupam terrenos ilegalmente pelo prazer de transgredir. Fazem-no por não ter onde se abrigar, onde dormir, ou se proteger da chuva, do frio, do calor, de nada. Não se trata de justificar a irregularidade, mas compreender a complexidade do problema, que não se restringe àqueles moradores. Ou é resolvido em conjunto pelos governos e pela sociedade, ou não será resolvido.


O destempero do comando da ação chegou a tal ponto que até o secretário nacional de Articulação Social, Paulo Maldos, foi atingido por bala de borracha disparada por policiais militares. Se isso aconteceu com o homem que representava o Palácio do Planalto, tem-se a noção do tratamento dispensado a quem estava sendo posto para fora. A desocupação pode até ser juridicamente justificável. O método é inaceitável. Muito mais que o descumprimento das leis, talvez a tolerância com tal violência seja prova maior do estágio de incivilidade

 

Érico Firmo

ericofirmo@opovo.com.br

Jornalista, editor-adjunto do núcleo de Conjuntura do O POVO

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