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Paul Krugman 18/02/2012 - 15h00

Severa síndrome conservadora

Mitt Romney tem o dom da palavra – da palavra autodestrutiva. Na semana passada, ele se complicou novamente, ao dizer, na Conferência de Ação Política Conservadora, que foi “um governador severamente conservador”.

 

Como Molly Ball, do “The Atlantic”, notou, Romney “descreveu o conservadorismo como se fosse uma doença”. De fato. Mark Liberman, professor de linguística na Universidade da Pensilvânia, forneceu uma lista das palavras mais comumente usadas após o advérbio “severamente”; as cinco com mais frequência de uso são incapacitado, deprimido, doente, limitado e machucado.


Está claro que não é isso o que Romney quis transmitir. Mas, se você olhar a corrida pela indicação presidencial do Partido Republicano, você vai se perguntar se foi um lapso freudiano. Está claro que algo está muito errado no conservadorismo moderno dos Estados Unidos.


Vamos começar com Rick Santorum, que, de acordo com a Public Policy Polling, é o atual favorito entre os eleitores nas primárias republicanas, com 15 pontos à frente de Romney. Qualquer um que tenha conexão de internet sabe que Santorum é muito conhecido pelas declarações dadas em 2003 sobre homossexualismo, incesto e bestialidade. Mas a estranheza dele é mais profunda que isso.


Por exemplo, no ano passado, Santorum demonstrou sua defesa pelas cruzadas medievais contra “a esquerda norte-americana que odeia a cristandade”. Colocando à parte as questões históricas (o que são alguns massacres de infiéis e judeus entre amigos?), o que essa observação estava fazendo em uma campanha do século 21?


Não se trata somente de sexo e religião: ele declarou também que as mudanças climáticas são um engano, que faz parte de “um complô lindamente armado” pela “esquerda” para dar “uma desculpa quanto ao controle governamental sobre a sua vida”. Você pode dizer que essas teorias conspiratórias não é algo único a Santorum, mas a questão é: chapéus de papel-alumínio (tinfoil) se tornaram um acessório de moda comum, senão obrigatório, do Partido Republicano.


Então, existe Ron Paul, que está em segundo lugar nos caucus do Maine, a despeito da grande publicidade dada a questões como os boletins racistas (de teor conspiratório) publicados sob o nome dele nos anos 1990 e as declarações de que a Guerra Civil e a Lei dos Direitos Civis foram erros. É claro, uma parte grande da base do partido dele está confortável com posições que poderíamos imaginar que fizessem parte da margem extrema.


Finalmente, existe Mitt Romney, que provavelmente será indicado, apesar do fracasso evidente em criar uma conexão emocional com, bem, com qualquer um. A verdade, é claro, é que ele não foi um governador “severamente conservador”. A maior realização dele foi uma reforma da saúde idêntica em todos os aspectos importantes à reforma nacional do presidente Barack Obama quatro anos depois. E, em um mundo político racional, a campanha dele se centraria nessa realização.


Mas Romney está procurando a indicação como candidato presidencial, e, quaisquer que sejam as crenças pessoais deles – se realmente ele acredita em algo além do fato de que deveria ser presidente –, ele precisa ganhar com os eleitores das primárias que realmente são severamente conservadores, nos dois aspectos: tanto nas intenções dele quanto no que ele não quis dizer.


Assim, ele não poderá fundamentar a campanha em seu histórico. Nem estava tentando fundamentá-la no histórico de empresário, antes mesmo de as pessoas começarem a formular perguntas difíceis (e apropriadas) sobre a natureza dessa carreira.


Em vez disso, os discursos de campanha dele se fundamentam quase todos em fantasias para atender às ideias iludidas da base conservadora. Não, Obama não é alguém que “iniciou a Presidência pedindo desculpas pelos Estados Unidos”, como Romney declarou, mais uma vez, há uma semana. Mas esta “falsidade de quatro Pinóquios”, como disse Fact Checker, do Washington Post, está no coração da campanha de Romney.


Como o conservadorismo norte-americano ficou tão desligado dos fatos e da racionalidade, na verdade, tão contrário a eles? Nem sempre foi assim. Acima de tudo, aquela reforma da saúde que Romney quer que esqueçamos seguiu um plano original montado pela Fundação Heritage!


Minha resposta curta a isso é que o engano de longo prazo vindo dos conservadores econômicos e os apoiadores ricos a quem eles servem finalmente deu errado. Há décadas, para ganhar as eleições, o Partido Republicano apela para as divisões sociais e raciais; mas, após cada vitória, aplica a desregulamentação e reduz os impostos sobre os ricos. Foi um processo que atingiu o auge quando George W. Bush conquistou a reeleição posando de defensor dos Estados Unidos contra os terroristas com casamentos gays, mas anunciou que tinha mandato para privatizar a Previdência Social.


Com o tempo, no entanto, essa estratégia criou uma base que acreditava realmente em toda essa baboseira – e agora a elite do partido perdeu o controle.


A questão é que o campo lamentável de candidatos do Partido Republicano – existe alguém que não o considere lamentável? – não é acidental. Os conservadores econômicos atuaram em um jogo cínico e agora estão enfrentando os resultados negativos e inesperados disso, um partido que sofre de conservadorismo “severo” da pior maneira. E essa doença pode levar muitos anos até a cura.

 

Paul Krugman

Professor de Economia da Universidade de Princeton é articulista do New York Times. Recebeu o Prêmio Nobel de Economia em 2008

 

Tradução: Daniela Nogueira

danielanogueira@opovo.com.br

 

"Santorum é muito conhecido pelas declarações dadas em 2003 sobre homossexualismo, incesto e bestialidade"


"O engano de longo prazo vindo dos conservadores econômicos e os apoiadores ricos a quem eles servem finalmente deu errado"


"Os conservadores econômicos atuaram em um jogo cínico e agora estão enfrentando os resultados negativos e inesperados disso"

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