O fato político que alimentou a semana foi o caso envolvendo o ministro dos Esportes, Orlando Silva (PC do B), em mais um delicado momento do governo Dilma Rousseff. Com base na mesma gênese, ao partir de denúncia formulada pela revista Veja, o roteiro da sina do comunista não difere em nada na comparação com as outras situações que levaram a quedas anteriores de auxiliares diretos da presidente.
Inexoravelmente parte-se de denuncia veiculada no final de semana por revista de grande circulação; a imprensa repercute com a oposição, que logo grita aos quatro ventos que o ministro é culpado, e por aí vai. Em pouco tempo, como rastrilho de pólvora, a imagem do acusado vai ao chão, não adiantando de nada a sua versão, porque o intuito é derrubar o “corrupto”, como é tratado o personagem escolhido para ser a bola da vez.
Quando os alvos foram ministros do PMDB, do PR, até que ficava fácil para a oposição e os arautos da moralidade pública o intento, levando-se em conta o histórico desses partidos. No que diz respeito ao ministro Orlando Silva, todavia, há fatos que chamam a atenção e mereceriam por parte de alguns formadores de opinião o devido cuidado antes de imolá-lo em praça pública.
O primeiro deles é que as denúncias não são novas, tratando-se de clara intenção de ressuscitar acontecimentos já tornados públicos pelos próprios meios de comunicação. Outro aspecto, é que além de serem matérias requentadas, para usar o jargão jornalístico, coincidentemente, a Veja e a Rede Globo veicularam denúncias no mesmo final de semana, sem que se passasse qualquer vinculação entre os dois fatos.
Ora, o grande público desconhece a tensão que estaria havendo entre a CBF e a Fifa de um lado, e o governo de outro, em torno da discussão sobre a Lei Geral da Copa, prestes a tramitar no Congresso. Como representante do governo, o ministro criou áreas de atrito com a CBF e a Fifa, tanto que como revelou a Folha de São Paulo na semana passada, o próprio governo tem como certo que as denúncias contra Orlando Silva foram ressuscitadas com a ajuda da CBF e da Fifa. O pano de fundo, informa Fábio Zambeli, que edita a coluna Painel, na Folha, seria a tentativa de interferência na legislação.
Todo esse cenário passa despercebido pela opinião pública, que ao apoiar Dilma na sua faxina até agora, quer também que a limpeza atinja o ministro dos Esportes. Mas o calvário de Orlando Silva, independente da veracidade das acusações, tem também um componente didático, que é a esquerda colhendo do seu veneno. Durante anos, a denúncia sem provas foi o principal instrumento usado pelos partidos de esquerda no Brasil para atacar adversários, se utilizando dos veículos de comunicação. Acusados, que depois, mesmo inocentados, não obtiveram sequer um pedido de desculpas. Agora, por mais que se tente defender Orlando Silva, no mínimo ficará a dúvida, o que por si só já é quase uma condenação.
Além do personagem principal
Para além do personagem principal do episódio envolvendo o Ministério dos Esportes, o fato nos remete a fragilidade de nossos partidos políticos, não isentando nem mesmo os mais, digamos, ideológicos. Como aceitar, por exemplo, que o PCdoB tenha em seus quadros uma pessoa como esse policial denunciante, que enricou ganhando pouco mais de R$ 4,5 por mês. Isso só demonstra o quanto o eleitor é menosprezado pelas agremiações partidárias no Brasil. Toda a discussão sobre Ficha Limpa nas eleições poderia muito bem ser encerrada, se os partidos criassem seus mecanismos de limpeza e se auto depurassem. Seria bom para a credibilidade dos partidos, o eleitor contaria com opções mais honestas, e as legendas não se veriam envolvidas m dramalhões mexicanos.
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