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KELMÉRICAS 06/07/2012 - 07h04

Confissões de um míope

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Um dia contei pra minha mãe que estava com dificuldade de enxergar o que o professor escrevia na lousa. A mãe, preocupada com o filhote, logo marcou consulta no oculista. Foi aí que descobri que era deficiente visual, um míope, e precisaria usar óculos.

Míope. Palavra estranha. Não combinava comigo. Oi, meu nome é Ricardo e sou míope... Muito estranho. O óculos então, nem fale. Agora eu era um garoto de 12 anos que usava um artefato sobre o nariz e precisava viver com dois pedaços de vidro o tempo todo bem diante de meus olhos. É como acordar e descobrir que há um novo órgão em seu corpo que antes não existia. Como se já não bastassem as espinhas no rosto e a voz desafinando...

Nos primeiros dias você se sente meio idiota e se olha o tempo todo no espelho, sem qualquer intimidade com aquela pessoa ridícula que insiste em ser você. Agora você é uma mistura desengonçada de humano com, digamos, um pato. Você entra no ônibus e todos olham pro pato de calças. Em outros casos você se torna um pato invisível, principalmente pra garota da outra classe que de repente deixou de olhar pra você.

Não consegui me acostumar com minha nova condição. Sempre que podia tirava o óculos, escondia no bolso. Sem falar nas vezes em que esqueci no banheiro ou, crec!, sentei sobre o desgraçado. E a cada vez que fazia o exame de vista, me descobria mais cego, três graus, quatro, cinco... Onde ia parar?

Com o tempo aprendi a conviver com o inimigo, uma relação de amor e ódio. Amor quando precisava ler as legendas no cinema ou ver de longe o Circular se aproximando. Ódio quando esquecia de tirá-lo e a gatinha do segundo ano achava de passar justamente nesse momento. Com óculos eu era o patinho feio, sem óculos o mundo virava uma coisa desfocada: você percebe que tem alguém olhando pra você mas não sabe quem é e muito menos se está olhando mesmo pra você. Se responder ao aceno poderá estar acenando justamente praquele chato insuportável. Melhor fingir que não viu.

Nessa fase do processo o míope descobre que o menos pior é não olhar pra ninguém, andar de farol baixo. Melhor fulano achar que você não o viu que achar que você não quis falar com ele. O míope então restringe suas relações visuais com as pessoas a um raio de cinco metros e quem estiver além disso não faz parte de seu mundo. E acaba ganhando uma imerecida fama de boçal.

Já adulto, passei a usar lentes de contato. Elas me prometiam um mundo novo, onde eu enxergaria tudo normalmente. Mas lentes requerem adaptação. Você deixa de ser um pato com óculos fundo-de-garrafa e se torna uma dondoca, sempre com unhas cortadas pra não riscar a lente, estojinho com soro fisiológico e outros produtos e tendo que ir lavar as lentes bem no meio do filme. Isso quando elas não caem do olho no melhor da festa e você tem de pedir pra acender a luz, todo mundo parar de dançar... Sei de um caso em que a moça, após ardente noite de amor, encontrou uma lente de contato na entrada de sua xana. Ela ainda pensou em ligar pro sujeito pra devolver mas desistiu, sei lá, podia não ser dele... Fosse quem fosse, era um cavalheiro: preferiu ficar cego a interromper o ato e estragar o romantismo do momento. Se fui eu? Não tô autorizado a falar sobre o caso.

E os olhos vermelhos? Qualquer ventinho e, pronto, lá ia a dondoca pro banheiro. As lentes irritavam tanto que meus olhos eram uma constante tocha vermelha. Pô, cara, quantos baseados tu fumou? No início eu ainda explicava mas depois desencanei. E por que não usava colírio? Porque não podia, estragava a lente. Decidi que era melhor passar por maconheiro que enxerga que por careta cego.

E o ritual de tirar as lentes antes de dormir? Lavar bem as mãos com sabão, não enxugar, encher o estojinho com conservante, tirar a lente do olho, lavar e enxaguar, por as lentes no conservante, fechar com cuidado... Imagine esse meticuloso ritual depois de uma noitada daquelas. Várias vezes acordei no dia seguinte sem lembrar como conseguira fazer. E várias vezes descobri que não conseguira mesmo pois o diabo da lente não estava no estojinho, putz, o que me fazia sair de quatro, cego e de ressaca, procurando uma coisa minúscula e transparente pelo chão do quarto, que ridículo.

Cheguei ao ponto em que trabalhava apenas pra comprar novas lentes. Então desisti e, sem dinheiro pra comprar óculos novo, resgatei um velho óculos de grau, de lentes escuras. Deixei de ser o doidão dos olhos vermelhos pra ser o doidão que até à noite usa óculos escuro. Mas como o grau estava defasado, eu agora era o doidão boçal que não falava com as pessoas. A situação estava cada vez pior.

Depois veio a fase das lentes descartáveis. Todo ano eu me consultava com a dra. Wélia e comprava seis pares de lentes. Mais finas e flexíveis, elas não irritavam tanto. Que maravilha da tecnologia oftalmológica! Eu deixaria de ser o doidão boçal e, aos 32 anos, seria finalmente um sujeito normal. Bem, quase, pois é difícil se livrar de um hábito de duas décadas – apesar de agora enxergar perfeitamente, eu sem perceber ainda evitava encarar as pessoas. Teria de reaprender a olhar nos olhos do mundo.

Pausa pro Discovery Channel Maravilhas do Corpo Humano. Uma coisa curiosa é que quando estava sem lentes eu não entendia bem o que as pessoas diziam. Descobri que além de cego ficava meio surdo. É que somos incrivelmente dependentes da linguagem visual que vem dos gestos sutis do corpo, das mãos e do movimento dos lábios. Inconscientemente nos guiamos por eles pra reforçar o sentido da palavra falada. Sem os gestos auxiliares, a recepção da mensagem pode ficar comprometida, como era o meu caso.

Ano passado, após seis anos de visão descartável, decidi fazer a tal cirurgia de miopia. Você deita, arregalam seu globo ocular, pingam um colírio alucinógeno e enquanto você viaja pelo cosmos o raio laser faz o serviço. Vinte minutinhos, coisa simples, sem dor. Entrei na sala com sete graus e saí com um, incrível. Melhorou bastante, é claro, mas agora tenho uma nova dificuldade. Ela se chama cegueira noturna. É relativamente comum nesses casos: durante o dia enxerga-se bem mas à noite o mundo fica desfocado, as luzes confundem. Parece que preciso voltar à mesa de cirurgia pra uma pequena correção. Putz, quando essa saga vai terminar?

Enquanto isso, não me leve a mal se naquela noite não respondi a seu sorriso. Apesar dos progressos, ainda sou um deficiente visual e necessito do apoio da sociedade...


> Mais textos nesse tema: http://blogdokelmer.wordpress.com/2012/06/30/confissoes-de-um-miope


Ricardo Kelmer é escritor, roteirista e dono de cabaré. Mora em São Paulo. Lançou em 2011 o romance O Irresistível Charme da Insanidade (editora Artepaubrasil) e atua no espetáculo poético-musical Viniciarte - Vida, música e poesia de Vinicius de Moraes, de sua autoria. Site pessoal: Blog do Kelmer - Um escritor em liberdade incondicional, blogdokelmer.wordpress.com

> TAGS: kelméricas
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