O ano era 2003. O Grupo Bagaceira, então, comemorava o ingresso em seu quarto ano de trabalho com o espetáculo Ano 4 d.c (trocadinho para 4 depois do começo). Em cena, os atores se revezavam num conjunto de esquetes. Um deles, com texto de Rafael Martins (dramaturgo oficial da companhia) e direção de Herê Aquino (do coletivo Expressões Humanas) chamava atenção. Nele, Tatiana Amorim, sempre muito firme e segura, dividia o palco, tomado por um banco de uma praça imaginária, com um ator extraordinário. Era impossível não embarcar naquele romance insólito, absurdo. Em muito, pela força cênica de Silvero Pereira.
Veja fotos do Translendário
De Dèjá Vu em diante, ver Silvero Pereira, um ator talhado em muitas veredas, foi sempre uma grande surpresa. Graduado em artes cênicas na universidade, Silvero, porém, é formado no amadorismo. Como tal, pensa e faz teatro de forma quase espontânea, embora hoje tenha agregado à sua criação um expressivo viés de pensamento. Pelo Bagaceira, fui apresentado ao trabalho que o ator já fazia desde 2000 com o Grupo Parque de Teatro, de Aquiraz. Sem grandes pretensões, Silvero tem assinado com o coletivo montagens interessantes e ali fundamenta as bases que o catapultam ao lugar de destaque que tem hoje na cena local.
Como ator e diretor, engata a montagem de O Mistério da Cascata (2004) com a encenação do solo Uma flor de dama (2005), ambos da obra do escritor gaúcho Caio Fernando Abreu, e não mais passa a figurar no rol dos estreantes. Com pouco mais de 20 anos, Silvero Pereira foi alçado à condição de veterano pelo surpreendente talento que ele demonstra ter. Uma flor de dama é um dos espetáculos mais bem arrematados que o Ceará já produziu. É um dos poucos trabalhos locais que conquistou projeção nacional consistente. É, ainda, o espetáculo de maior resposta de público dos últimos tempos.
Com a montagem, Silvero encontrou um objeto de pesquisa extremamente rico – o universo das travestis – e tem feito seu teatro a partir daí. No repertório, além de Uma Flor de Dama, ele conta com ainda com os espetáculos Cabaré da Dama, Engenharia Erótica e Yes, Nós temos banana!. Como criador, sua grande expertise foi conseguir levar às plateias um segmento enorme de pessoas interessadas em diversão e garantir que elas se divertissem sem que o seu fazer teatral fosse passado a um segundo plano. Ao fazer do teatro uma experiência festiva, e não menos densa e emotiva, Silvero Pereira criou o mais difícil para quem vive de teatro: público.
Isso, porém, sem reduzir ou fazer concessões de ordem estética. Em 2010, por exemplo, o crítico de espetáculos Miguel Anunciação viu Uma Flor de Dama ao meu lado numa temporada em Belo Horizonte e, sabendo que eu era cearense, não se conteve ao afirmar que a montagem de Silvero era, em parte, superior a de Gilberto Gawronski, premiado ator gaúcho responsável pela primeira adaptação do texto A dama da noite (título original do conto de Caio Fernando Abreu), em 1997. Extremamente forte em cena, Silvero Pereira é um desses militantes sem os quais o teatro não sobrevive.
Novos públicos
Muito inventivo, ele encontrou estratégias novas e absolutamente pertinentes dentro do contexto atual para a viabilização de suas montagens. Silvero Pereira tem vídeos e mais vídeos publicados no YouTube, produz teasers de suas peças já durante os processos de montagem para criar expectativa para as estreias, mantém constantemente ações nas redes sociais. Ou seja: é um artista conectado ao seu tempo. Assim, pensou e executou o seu Translendário. A ideia é genial. Mês a mês, com o elenco dos espetáculos (os atores em seus tipos travestis) ele produziu um calendário, disponibilizado na Internet, que registra toda a agenda de apresentações.
Passada a polêmica instaurada pelas críticas feitas ao projeto pelo deputado Fernando Hugo (PSDB) na Assembleia Legislativa, é preciso que o episódio, político, não seja vinculado ao trabalho, artístico, de Silvero Pereira. O Translendário tem tudo, menos uma provocação ideológica ou mesmo uma tentativa velada de ofensa a alguma denominação religiosa. Ali, o que tem é arte e suor de um artista incansável, interessado, sobretudo, em fazer teatro. Construir um talento como o de Silvero Pereira leva anos, demolir, no entanto, é coisa de instantes.
Para entender
9/5. Publicado em janeiro, o Translendário foi tema de debate na Assembleia puxado pelo deputado Fernando Hugo, que criticou o fato de a Prefeitura de Fortaleza financiar o projeto.
10/5. Apesar de a Prefeitura negar apoio à produção, a discussão ganhou força na imprensa de todo o País e nas redes socias, questionando os limites da releitura feita de imagens religiosas.
Magela Lima
magela@opovo.com.br
Imagem & Movimento
Camila Vieira
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