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Gênios da raça 27/07/2013

Macaúba, o rei do bandolim

Prestes a festejar 70 anos, Macaúba relembra histórias e reafirma a paixão pelo instrumento que aprendeu a tocar sozinho, ainda criança
EDIMAR SOARES
Macaúba: músico autodidata é conside-rado maior bandolinista do Ceará
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São mais de sessenta anos de uma paixão vivida na ponta dos dedos. Com delicadeza e maestria, José Felipe da Silva – ou simplesmente Macaúba – dedilha o amor pelo chorinho desde os 8 anos. O pai, seu Walter, tocava bandolim, cavaquinho e violão, mas por ele o coração do filho não seria tomado pela música.


“Eu me criei dentro da música. Meu pai tocando, fazendo aquelas rodas de choro em casa. Mas ele não queria que eu aprendesse a tocar pra não aprender a beber”, conta o homem baixinho, pele avermelhada de sol e sorriso tímido, embora de uma gaiatice sem disfarce.


Considerado o maior bandolinista do Ceará, respeitado por gente como Paulinho da Viola e Hamilton de Holanda, quando criança Macaúba ignorou a desaprovação do pai. A despeito da recusa de seu Walter em ensinar o menino a tocar, ele descobriu sozinho os mistérios do bandolim. “Meu brinquedo foi o instrumento”, resgata.


Aos 13 anos, começou a lida formal numa fábrica de alumínio. Vem dessa época o curioso apelido que carrega até hoje. “Eu tinha a cabeça raspada quando entrei lá como varredor. A gente varria a rebarba do alumínio que ficava nos salões. Um dia eu não varri direito e um rapaz me deu um cascudo. Aí levantou aquele caroço e ele falou: ‘Oh, cabeça parecida com uma macaúba!’. Pronto, pegou”, ele narra, rindo.


De varredor, logo Macaúba passou a chefe de seção e lá ficou de 1957 a 1979. “Trabalhei como metalúrgico, mas sempre tocando”, ressalva. Ao longo dos 22 anos de carteira assinada, não foi fácil conciliar a rotina da fábrica à do músico. “Era muito ruim porque o serviço era grosseiro, atrapalhava os dedos, que ficavam todos cortados. Um dia eu ia perdendo a mão. Não perdi porque a máquina (uma tesoura de cortar alumínio) não disparou. Aí fiquei com medo”, ele conta sentado de frente pro mar de Iparana (a 23 Km de Fortaleza), no bar do amigo Cacá. “É o meu escritório”, brinca Macaúba, que sempre morou “na beira da praia” e nunca aprendeu a nadar.


Enfim, a música

Desde que finalmente se decidiu pela música, Macaúba nunca ficou sem trabalho. Tocou em bares como o Bar da Gia, o Cais Bar, além de viajar pelo Brasil representando o choro cearense. Até hoje tira o sustento do bandolim.

 

“O grupo de choro do Macaúba (formado com Carlinhos Patriolino, Chico do Cavaco e Ribamar) foi o primeiro a se manter financeiramente”, intervém Beliza, a dedicada companheira de Macaúba há 15 anos. “Ela é minha produtora. Me dá cada carão”, confidencia. A mulher é quem reclama a falta de espaços para o chorinho e o ainda pouco reconhecimento do trabalho do marido no Estado. “O Ceará é muito colonizado com relação aos seus artistas, o que vem de fora sempre é melhor”, critica.


Quase na mesma medida da música, no coração de Macaúba há espaço de sobra para os encontros. Daí entre 2000 e 2002, naquela mesma Iparana, ter sido preciso criar o Macaúbar. “Quando a gente veio morar aqui, os músicos vinham pra farrear mesmo, mas chegou num ponto que era tanta gente que tinha de colocar garçom”, relembra ele, entre as inúmeras e hilárias histórias do estabelecimento.


No próximo domingo, quando comemora o aniversário no Kukukaya, o sensível Macaúba - capaz de chorar com final de novela -deverá se emocionar como nunca. Vai estar rodeado de amigos, outros chorões da música feito ele, da família com que tanto se orgulha e daquilo que deu sentido à sua vida. “O choro, pra mim, é tudo”, resume e agradece.


SERVIÇO

 

70 anos de Macaúba

Quando: Domingo, 28, a partir de 15h

Onde: Kukukaya (Av. Pontes Vieira - Dionísio Torres)

Entrada franca.

Outras informações: (85) 3227-5661

 

Raphaelle Batista raphaellebatista@opovo.com.br
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