Vivemos a era das reparações. Um sentimento de culpa que se impõe sobre muitos busca jogar para as gerações futuras e presentes a responsabilidade sobre séculos de miséria e escravidão.
Na tarde de terça-feira, tive a oportunidade de conversar – sempre sob os auspícios do bon monsieur, Gerado Accioly – com o prefeito de Porto-Novo, capital do Benin, país situado na costa ocidental da África. Estreitando o Atlântico, daria para ver o Benin da Beira-Mar.
O prefeito chama-se Moukaram Oceni e pertence a um partido que faz oposição ao Governo Central. O Benin vive uma democracia com eleições livres desde 1990. Orceni, que fez seus estudos em Lyon, na França, pertence a uma família com situação financeira confortável. Sua origem étnica é Yoruba.
Porto-Novo surgiu como um entreposto comercial português. A região era uma grande provedora de escravos para o Brasil. Oceni conta que, após a abolição brasileira, uma parte dos escravos alforriados voltou ao País. Por terem aprendido habilidades profissionais no Brasil, acabaram formando a classe média fundamental na história econômica do Benin.
A comunidade dos ex-escravos criou no Benin, e especialmente na Capital, uma arquitetura que lá foi batizada de “afro-brasileira”. Uma mistura da cultura arquitetônica africana com o estilo colonial implantado pelos portugueses no Brasil.
Uma parte dessa comunidade tinha uma boa formação educacional por serem de famílias ricas de tribos dominadas e escravizadas por outras tribos nas guerras locais.
Daí a minha pergunta dirigida a Moukaram Oceni: “Aqui no Brasil, floresce e estimula-se em alguns setores um sentimento de culpa pela escravidão. Fala-se muito em reparações e cotas. E lá, que tinha nas tribos dominantes elos fundamentais na escravidão dos negros, há sentimento de culpa?”.
Reposta curta e muito objetiva: “Vemos isso apenas como parte da História. Uma parte da História que ficou para trás”. Simples assim.
É preciso olhar pra frente. O Benin é o antigo reino Daomé. A História conta que os chefes do Daomé tentaram incorporar seu reino ao império do Brasil para vender escravos sob a proteção de Pedro 1º. Em 1840, o rei Gezo, do Daomé, declarou que “o tráfico de escravos tem sido a fonte da nossa glória e riqueza”. Eram as circunstâncias históricas de uma época.
O domínio português sobre o “Daomé”, conhecida como a “Costa dos Escravos”, se deu até 1865. Vieram a seguir os franceses, que dominaram a região até a independência, em 1960. Do domínio francês, ficou a herança da língua. Dos ex-escravos do Brasil, a herança gastronômica, arquitetônica e muitos sobrenomes comuns por aqui.
Hoje, o Benin procura ajuda do Brasil para recuperar as casas com a arquitetura “afro-brasileira”. Foi feito um convênio entre as prefeituras de Lyon, Fortaleza e Porto-Novo para recuperar essa parte peculiar da história arquitetônica do país africano. Está aí uma boa forma de reparação.
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