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Fábio Campos 15/12/2011 - 01h30

Caravelas queimadas

A comunidade dos ex-escravos criou no Benin, e especialmente na Capital, uma arquitetura que lá foi batizada de "afro-brasileira"

 

Vivemos a era das reparações. Um sentimento de culpa que se impõe sobre muitos busca jogar para as gerações futuras e presentes a responsabilidade sobre séculos de miséria e escravidão.


Na tarde de terça-feira, tive a oportunidade de conversar – sempre sob os auspícios do bon monsieur, Gerado Accioly – com o prefeito de Porto-Novo, capital do Benin, país situado na costa ocidental da África. Estreitando o Atlântico, daria para ver o Benin da Beira-Mar.


O prefeito chama-se Moukaram Oceni e pertence a um partido que faz oposição ao Governo Central. O Benin vive uma democracia com eleições livres desde 1990. Orceni, que fez seus estudos em Lyon, na França, pertence a uma família com situação financeira confortável. Sua origem étnica é Yoruba.


Porto-Novo surgiu como um entreposto comercial português. A região era uma grande provedora de escravos para o Brasil. Oceni conta que, após a abolição brasileira, uma parte dos escravos alforriados voltou ao País. Por terem aprendido habilidades profissionais no Brasil, acabaram formando a classe média fundamental na história econômica do Benin.


A comunidade dos ex-escravos criou no Benin, e especialmente na Capital, uma arquitetura que lá foi batizada de “afro-brasileira”. Uma mistura da cultura arquitetônica africana com o estilo colonial implantado pelos portugueses no Brasil.


Uma parte dessa comunidade tinha uma boa formação educacional por serem de famílias ricas de tribos dominadas e escravizadas por outras tribos nas guerras locais.


Daí a minha pergunta dirigida a Moukaram Oceni: “Aqui no Brasil, floresce e estimula-se em alguns setores um sentimento de culpa pela escravidão. Fala-se muito em reparações e cotas. E lá, que tinha nas tribos dominantes elos fundamentais na escravidão dos negros, há sentimento de culpa?”.


Reposta curta e muito objetiva: “Vemos isso apenas como parte da História. Uma parte da História que ficou para trás”. Simples assim.


É preciso olhar pra frente. O Benin é o antigo reino Daomé. A História conta que os chefes do Daomé tentaram incorporar seu reino ao império do Brasil para vender escravos sob a proteção de Pedro 1º. Em 1840, o rei Gezo, do Daomé, declarou que “o tráfico de escravos tem sido a fonte da nossa glória e riqueza”. Eram as circunstâncias históricas de uma época.


O domínio português sobre o “Daomé”, conhecida como a “Costa dos Escravos”, se deu até 1865. Vieram a seguir os franceses, que dominaram a região até a independência, em 1960. Do domínio francês, ficou a herança da língua. Dos ex-escravos do Brasil, a herança gastronômica, arquitetônica e muitos sobrenomes comuns por aqui.


Hoje, o Benin procura ajuda do Brasil para recuperar as casas com a arquitetura “afro-brasileira”. Foi feito um convênio entre as prefeituras de Lyon, Fortaleza e Porto-Novo para recuperar essa parte peculiar da história arquitetônica do país africano. Está aí uma boa forma de reparação.

 

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Dr. Mundico 16/12/2011 08:49
Ao tomar um fato passado (escravidão) como motivação política, pratica-se um revisionismo histórico que procura rever e subverter conceitos e tentar impor uma visão ideológica de poder. Dizer que a escravidão negra dá direito a , 200 anos depois, impor cotas e exceções sociais para compensar erros, traduz uma esperteza sociologicamente vendida, um sofisma construído no erro e na má-interpretação da História. Tais conceitos foram devidamente apropriados por grupos políticos que, tentam a todo custo, criar diferenças para colher conflitos e vender intermediações. E vender caro. Tomar uma raça como exercício da prática política poder ser perigoso, ainda que lucrativo. Tomar o passado com única referência assemelha-se a negar o futuro. Tomar a pobreza atual de setores sociais como única consequência da escravidão pretérita é um exercício de sagacidade marota. Apresentar a escravidão como única causa de todos os males de uma raça é no mínimo um procedimento irresponsável e mal intencionado. Não se trata de negar a história e sim de aceitá-la de maneira humana e objetiva, sem procurar tirar vantagens á custa do erro de gerações passadas. Qual país cresceu com escravidão? A escravidão prejudicou tanto o escravo quanto o senhor. Todos perderam nessa conta, acreditem. A história está aí, até um imperador perdeu o emprego e presidentes foram depostos por grupos econômicos falidos. Foi preciso aparecer um Vargas para enterrar uma elite rural caduca e inventar um arremedo de elite industrial. A nação toda perdeu com a escravidão: brancos, negros, senhores, escravos, patrões, trabalhadores e todo tipo de gente que possa haver. E parece que vai continuar perdendo por muito tempo, enquanto durar essa eterna e gratificante vingança que vai fazendo a sorte de alguns mulatos espertos.
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Trevor Tanner 15/12/2011 09:30
Pelo que puder compreender em seu texto, vc se contrapõe ao sistema de cotas raciais como política afirmativa. (Por favor, me perdoe se minha interpretação estiver equivocada). No Brasil, pelos dados do IBGE, mais de 70 por cento das pessoas que tem seus direitos negados tem a pele negra. Então , a curto prazo, a política de cotas serai a mais indicada (aliada a outras políticas de médio e longo prazo) Os negros escravizdaos aqui no Brasil além, de terem sido vilipendiados em sua própria terra , foram vilipendiados aqui no Brasil e seus descendentes tem os seus direitos negados até hj. A miséria no Brasil tem cor.....Os homícidios no brasil tem cor, a supressão de direitos no brasil tem cor.... Então, porque não utilizar o padrão " cor" como objeto de uma política afirmativa de Direitos ?
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