Quem conhece as nuances do petismo percebe uma leve mudança no discurso relacionado às conversas de 2012. Há sinais de que setores do partido começam a se preparar para a possibilidade de uma disputa em Fortaleza onde o candidato do PT poderá não ter o apoio do governador Cid Gomes.
O deputado federal José Nobre Guimarães (PT) foi ao Jogo Político (TV O POVO e TV Assembleia) da última segunda-feira e deu a senha. O petista disse em alto e bom som: “É normal que os partidos aliados lancem suas candidaturas a prefeito. É normal que o PCdoB avance no lançamento de Inácio Arruda. É até uma questão de sobrevivência”.
Antes, Guimarães (e qualquer outro petista) só falava acerca de 2012 ancorado na pregação para que a grande aliança se mantenha. A conversa mudou de tonalidade. Experiente, o deputado parece falar muito mais para o público interno que o externo. É como se ele estivesse preparando o partido para a possibilidade que, no fundo, não é a pretendida.
De fato, o primeiro turno existe para que o mercado político ofereça aos eleitores a maior quantidade possível de opções. Como foi em 2004, quando havia pelo menos cinco candidaturas fortes bastante representativas das circunstâncias políticas de então.
Naquela disputa, os dois candidatos que foram ao segundo turno (Moroni Torgan e Luizianne Lins) tiveram no primeiro uma votação total inferior a 50%. No segundo turno, as alianças se viabilizaram e o processo se deu de forma bastante representativa.
Caso a aliança entre o governador e a prefeita se mantenha em 2012, são grandes as chances da disputa se resolver em um só turno. Afinal, um candidato apoiado pelas duas maiores máquinas políticas do Ceará entra na campanha como favorito óbvio.
Mesmo assim, não há nenhuma garantia de que a coisa se resolverá em um só turno. Lembrem-se que, em 2008, mesmo montada na grande aliança, com o apoio do governador e o apoio do então presidente Lula, Luizianne foi vitoriosa no primeiro turno por uma diferença ínfima de votos.
Se a aliança não se mantiver, o segundo turno parece ser algo certo. Mas, se for assim, quem irá para o segundo turno? Bom, a lógica aponta que o candidato apoiado pela prefeita e o candidato apoiado pelo governador têm as maiores chances de seguir adiante para a segunda etapa.
Se essas duas forças se opuserem no segundo turno, fica a questão: a relação entre o PT e o PSB sobreviverá? Atentem que, historicamente, as disputas localizadas em Fortaleza costumam ser bastante agressivas. Além disso, as redes de apoios que naturalmente se formam em tais circunstâncias ajudam a provocar distanciamentos entre os lados.
Mas, não custa repetir: em política, o pragmatismo a favor da manutenção do status quo vigente determina as atitudes, as alianças e os compromissos. Portanto, a conveniência de manter a aliança (ou não) é que definirá o rumo dos acontecimentos.
A outra reforma
Na edição do O POVO da última quinta-feira, tratei da agenda positiva de Fortaleza. Embora de forma dispersa e sem o eixo do planejamento, a grande quantidade de investimentos públicos em andamento indica que a Capital passa por uma importante reforma urbana.
No entanto, há um problema a ser enfrentado com a máxima urgência: a maneira como uma boa parte da população se relaciona com a cidade não é civilizada.
Vejam um exemplo: tarde da última sexta-feira, por volta de 15 horas, na esquina da rua Tenente Benévolo com Senador Almino, junto ao muro do Instituto de Ciências Religiosas, um carroceiro despejava entulho na calçada. O imenso monturo já estava formado com material de demolição.
Eu e o jornalista Arlen Medina abordamos o carroceiro. Ele respondeu simplesmente assim: “O caminhão da Prefeitura vai já recolher”. O homem explicou que fora “contratado” para fazer o serviço. Disse-nos que o entulho vinha de uma loja, da avenida Monsenhor Tabosa, em reforma.
Perceberam? Há outra grande reforma a se fazer em Fortaleza. Notem que é facílimo identificar a origem e o autor do absurdo. Duas coisas são necessárias para iniciar a solução desse tipo de problema: fiscalização e multa. Uma multa exemplar. Para isso, é preciso também mudar a legislação, que é frouxa.
Sem rancor
Os bastidores políticos estranharam a indicação do ex-deputado Sérgio Novais para compor o diretório nacional do PSB. Afinal, trata-se de um inimigo declarado de Cid Gomes. Sabe-se que praticamente todos os delegados do Ceará no encontro do partido eram ligados ao governador. Então, quem bancou a posição de Novais? O próprio trabalhou para isso junto à ala histórica que compõe o PSB nacional, mas outro fator foi preponderante: Cid Gomes não fechou os espaços. O governador não fez nenhum movimento para impedir a indicação de Novais. Pelo contrário.
A força do campo
Qual o setor da economia brasileira que mais sofre ataques ideológicos? Fácil: a agropecuária. Ou, os “ruralistas”. Agora vejam essa informação: “O crescimento do PIB no terceiro trimestre foi nulo ante o trimestre anterior, segundo dados divulgados pelo IBGE. O número foi puxado por resultados pífios da indústria e do setor de serviços, que recuaram 0,9% e 0,3%, respectivamente, em relação ao segundo trimestre. O desempenho do setor agropecuário, no entanto, impediu que a economia do país retrocedesse no período, e avançou 3,2%. Em relação ao terceiro trimestre de 2010, o PIB cresceu 2,1%. Em valores correntes, a economia brasileira alcançou 1,05 trilhão de reais”. Faz tempo que é assim.
Dura lex
A Câmara de Recife aprovou projeto de lei que proíbe o consumo de bebidas alcoólicas nas vias públicas do município das 18h às 6h. Ou seja, se não for vetada, a proibição atingirá praias, ruas, calçadas, feiras e parques. O objetivo, disse, é diminuir os homicídios, a maior praga urbana da capital pernambucana. A base: lá, 51% dos crimes de morte envolvendo pessoas alcoolizadas nos segundo e terceiro trimestres de 2010 foram cometidos em vias públicas. A proposta foi apresentada por Marília Arraes, neta de Miguel e prima do governador Eduardo Campos. A vereadora apresentou também um projeto que fecha sumariamente o bar que vender bebida para menor de 18 anos.
Noitada de segunda
A política e o PIB do Ceará se encontram na noite de amanhã (segunda-feira) no Prêmio Delmiro Gouveia. Cid Gomes entrega ao empresário Freitas Cordeiro, presidente da CDL, a medalha Albanisa Sarasate. A seguir, a premiação indicará os melhores balanços financeiros e sociais do Estado. O presidente da Assembleia, Roberto Cláudio (PSB), e o presidente da Câmara de Fortaleza, Acrísio Sena (PT), representam os nossos principais parlamentos no evento. Será às 20 horas, no hotel Gran Marquise.
Fábio Campos
fabiocampos@opovo.com.br
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