A campanha de Fortaleza bate às portas. É muito provável que os candidatos dediquem-se a tratar do trânsito da cidade. São Paulo chegou aqui da pior forma possível. Antes, para marcar encontros, tínhamos na ponta da língua a frase: “chego em dez minutos”. Foi-se esse tempo.
No debate sobre o trânsito pesado, meio caótico, de Fortaleza, os candidatos vão ter a chance de tratar de um problema real. Um problema que atinge a todos. Indiscriminadamente, ricos, pobres e remediados.
A nós, cabe o cuidado para reprovarmos as costumeiras soluções sempre muito fáceis para problemas muito difíceis. O lugar comum é: “É preciso abrir novas ruas e avenidas”. Trata-se de uma embromação. Uma nova rua será apenas mais uma rua engarrafada.
Há um problema a ser diagnosticado. O primeiro: as nossas ruas sustentam o emprego da indústria automobilística de São Paulo. A gestão do presidente Lula, que tem sua gênese política no ABC paulista, criou uma série de facilidades para incrementar a venda de automóveis e beneficiar seus fabricantes e suas fábricas. Deu-se a aliança não declarada entre os sindicatos dos metalúrgicos da CUT e as multinacionais do ramo.
Abriu-se mão de impostos, promoveu-se a desburocratização e o incentivo ao crédito a perder de vista. Em contrapartida, nenhuma política respeitável para viabilizar um transporte público de qualidade nas grandes cidades. Aparentemente, tudo muito bem premeditado, não é?
O resultado é o que conhecemos bem: os “dez minutos” se transformaram em 60, as ruas estreitas e não preparadas para o trânsito se transformaram num inferno sob o sol, as regras do bom trânsito desrespeitadas, o veículo que leva 40 pessoas disputando espaço com o carro particular que leva apenas um, a velocidade do tráfego despencou. Insatisfação geral.
E a grita: “É preciso abrir ruas”. Perguntem a qualquer técnico e ele dirá que não é a solução. A saída é clássica: transporte público de qualidade que permita ao cidadão deixar seu carro na garagem. Alguns motivos podem levá-lo a fazer isso além de um bom sistema de transporte público. A saber: é caro optar pelo carro. Combustível, estacionamento, pedágios e tal.
UM PALAVRÃO
Como aqui já foi ditos algumas vezes, nunca Fortaleza passou por um período tão vigoroso de intervenções urbanas. Esse processo está em andamento e vai durar muitos anos. No transporte, as intervenções são e serão as mais caras e vistosas. Metrôs, VLTs e corredores especiais de ônibus (Transfor) são os exemplos.
O VLT precisa ser visto com muito carinho. Ele vai cortar e integrar a cidade de uma ponta à outra. Para existir, precisa remover cerca de 15 mil pessoas. Perto de três mil casas.
A palavra “remoção” virou nome feio. Os “do contra” chegam a ser agressivos com o José Walter, o ótimo e bem estruturado bairro escolhido para receber as famílias que vão sair das áreas públicas invadidas nas margens do trilho.
Sim, isso gera desconforto para quem estava acostumado ao seu lugar, mas não há grandes benefícios a favor de muitos sem o desconforto de um punhado.
DESOCUPEM A PRAÇA DO FERREIRA
É doloroso encarar O POVO pela manhã estampado na capa com a foto-denúncia da Praça do Ferreira em estado de degeneração. Minha primeira reação foi ligar para o Fausto Nilo, arquiteto co-autor do projeto. Ouvi o nosso compositor a lastimar. Estava triste e indignado.
Rigoroso, científico, Fausto ainda teve energia para falar-me da urbanização apressada de uma cidade que se fez metrópole em um curto espaço de tempo. A cidade cresceu sim. Os hábitos continuam, digamos, rurais.
Não se enfia um prego no Plano Piloto de Brasília sem o aval do arquiteto Oscar Niemeyer. Deveria ser assim com a Praça do Ferreira. Aquele recanto istórico patrimônio de todos nós.
Dessa vez, foi violentado pelos comerciantes. Os formais.
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