Li esta semana uma matéria da jornalista Alissa J. Rubin, do NYT, sobre a alimentação dos jornalistas em zona de guerra. Ela inclui estes momentos na classificação comfort food, o alimento que acalenta, que por alguns momentos leva a mente para os pontos de referência da origem de cada um. Este reflexo é salvador quando a mescla saudade e melancolia bate no peito.
Participei de um projeto de integração étnica perto de Lyon, em uma cidade cogumelo montada pela Peugeot para hospedar a mão de obra de, na maioria, magrebinos, turcos, gente do leste europeu. Lugar novo, sem história, sem norteamento sentimental, apenas habitacional. Para se posicionar no mapa deste micro universo, cada etnia começou a medir forças, começaram as brigas, rixas. A prefeitura de Lyon chamou o famoso teatrólogo Armand Gatti, que já tinha efetuado trabalhos de aproximação de grupos étnicos pela expressão no teatro.
Armand me chamou, e perguntou se eu enxergava uma maneira de mexer com a identidade culinária destes grupos, sendo esta talvez a maior expressão da cultura de cada país, montando uma estrutura que permitisse a cada nacionalidade apresentar o seu alimento tradicional, elaborar-se-ia um calendário com os lideres de cada uma delas, convidando as outras etnias em banquetes festivos, com música, trajes, danças...
Como cozinhar sem estrutura para quase 4.000 pessoas? Montamos com a ajuda do exercito uma cozinha de campo e três tendas parecidas com as de circo para abrigar estas festas.
A parte encantadora foi começar a conversar com pequenos grupos de donas de casa acompanhadas por maridos ciumentos e apitadores de receitas. Quando definida a receita, iniciava a transposição para a quantidade de convidados, elaboração das fichas técnicas e montagem do roteiro de pré-preparo e execução. Antes de tudo tive o prazer de ser convidado na casa dos representantes de cada grupo para provar e principalmente, memorizar os sabores. Começamos com os magrebinos, Argélia, Tunísia e Marrocos preparam o Couscous, cada país à sua maneira, conseguimos fazer um preparo que deixou todo mundo satisfeito. Cozinhar com quarenta senhoras e maridos, cozinheiro do exército foi uma performance !!!!
Os convidados de todos os grupos compareceram! Couscous regado com vinho rosé gelado de Bandol, servido em doses homeopáticas para não embrulhar as cabeças. Começou o serviço ao meio dia e terminou às quatro horas da tarde. Música de todos os países envolvidos, danças e início de inscrições para torneios de futebol, vôlei, carteados, xadrez, e oficinas de artesanato. Durante o evento, mulheres passavam henna amarrada na palma da mão deixando a marca do evento, que só sairia depois de 10 dias, cada um se lembrando assim, destes momentos de confraternização.
Resumindo, todas as etnias apresentaram, no mesmo modelo, a sua identidade nacional com base no preparo do alimento. As brigas, rixas, ocorrências com intervenção de autoridades diminuíram em 47% no primeiro trimestre, criou-se um tipo de comitê apoiado por dois psicólogos, que quando identificado um problema chamava para conversas quem mexia com a harmonia conquistada.
Quem está longe de casa, deve praticar o ato de cozinhar o alimento que remete às suas origens, lembranças gustativas adultas e até da infância. Este remédio para saudades não existe em nenhuma farmácia, e sim bem mais perto, ali no seu fogão !!!!
Bernard Twardy
buchicho@opovo.com.br
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