“Quando da construção das torres do Bagatelle & Demoiselle, nos anos 70, o ‘quintal’ era um espaço livre, desfrutável pela vizinhança, inclusive. Pura integração de moradores e seus vizinhos de entorno. Décadas depois, a insegurança levou à privatização dos jardins para uso dos condôminos. Mas continua valendo a proposta, contudo”. O comentário veio do leitor Francisco Veloso sobre a sugestão, escrita aqui, de se construírem em Fortaleza condomínios de apartamentos com quintais.
E por causa da manifestação de Veloso e do professor Diatahy Bezerra de Menezes continuo, por mais este sábado, a escrever sobre o olhar estreito dos mecenas da indústria da construção civil em derrubar quintais e só fazer nascer concreto. E porque não dizer, da pouca influência ou falta de interesse de engenheiros, arquitetos e dos secretários do Meio Ambiente e Controle Urbano (Semam). Não há atalhos que favoreçam, em medidas sustentáveis, ao lucro e à Cidade?
Penso que estou me tornando antigo e, talvez por isso, a comparação entre um tempo e outro caiba aos olhos. E não é saudosismo ou vontade que de volver nos anos. Não. Nem birra de militante porque a terra está pegando fogo e se derretendo em Irauçubas. É que falta árvore, verde, nos amanheceres dos que estão determinando qual Cidade se está reconstruindo.
Da janela do apartamento 903, onde vivo com uma Sudário (num edifício que também pôs abaixo um casarão e árvores), fotografo na engarrafada Carlos Vasconcelos - quase esquina com Bárbara de Alencar - outro condomínio nascendo. Mas antes, registro a demolição de duas casas da década de 70 e a destruição de dois quintais.
Os homens e um trator da imobiliária, alvoroçadamente, vão mastigando os pés de sapotis, coqueiros, goiabeiras, palmeiras... Umas vinte árvores, os ninhos e as teias dali. Volto no tempo e do banco de dados do jornal me mandam uma propaganda, página inteira, sobre a construção e oferecimento do Bagatelle & Demoiselle em 1976 (e não 74).
No melhor do texto estão oferecidos “10 mil metros de área verde”, um quarteirão. E o desenho aponta o lugar onde os pés-de-quê serão preservados ou plantados. Para cada automóvel estacionado, o rabisco de uma árvore e a proposta de sombra. E o interessante, o nome oficial do Bagatelle & Demoiselle é Parque Santos Dumont. Referência ao campo de voar, ao avião e o espírito de passarinho do aviador. Mais que isso, “parque” porque a ideia da construtora Baluarte era oferecer moradia em uma espécie de ”bosque” particular.
Particular, mas “público” em 1976. E como me escreveu Chico Veloso, o quintal era um espaço de entrançarem os vizinhos. Sim. De assar castanhas aos domingos, de acumular monturos, de jogar bila, de brincar de casinha, de subir em árvore e comer goiaba no pé, de ciscar folhas e puxar bicos de luzes para festinhas de aniversários ou tomar o mijo dos nascidos...
No Parque Santos Dumont, as torres Bagatelle & Demoiselle não eram cercadas nem por muro baé ou alambrados. Eram abertas de ir e vir. Tanto que alguns vizinhos, feito a jornalista Jaqueline Costa, levavam as crias para se banharem em uma das duas piscinas do condomínio “alheio”. Claro, com permissão do síndico ou comadre.
Sim, outra vantagem de morar no Parque Santos Dumont era ter “uma vista panorâmica para o mar”. Fitar e receber os sopros das praias do Futuro e Mucuripe. Espiar das janelas da Santos Dumont com coronel Jucá, perto do BNB clube, na Aldeota.Ali tudo era areia de duna, caminho de murici. Hoje, mais asfalto e concreto.
O tempo vai, tem de ir. A equação da reconstrução da Cidade é que é pensa, gangorra pendida. Há cimento demais no olhar e “ventin” de menos nos olhos.
Demitri Túlio
demitri@opovo.com.br
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