Fiquei pensando na conversa que tive com Ana dos Suspiros. Falávamos sobre o tamanho do dia e perguntas que não experimentamos quando ele vai terminando. Geralmente, esperamos findar o ano para fazê-las. Coisinhas bestas, mas que me pegaram no contra-pé. É que vamos meio automáticos e mortos vivos. Do escovar dos dentes ao voltar para dormir e nos repetir quando o despertador assunga... Nos assustamos, pulamos da cama, chuveiro, a roupa (repetida), café com pressa, língua queimada, trânsito, trabalho, maus humores...
A primeira pergunta, e não tenho resposta, é se terminado o dia “consegui ser o que queria ser”. Nem tinha botado na minha perspectiva de gente essa encruzilhada. E num espaço de vida tão ligeiro! Em 24 horas, fui o queria ser? Pois é, esquadrinho isto (meio robô) quando todo dezembro chega e temos a impressão que passa voando. Ou perto de completar aniversário em novembro. E, agora, até mais porque cheguei aos 45 e tenho a sensação que foi rápido apesar de quase meio século.
Não sei nem por onde começar a responder. E não pensem que não tem nada a ver, mas me veio a cabeça o episódio da Desaparecida do Cocó. Sim, essa jovem senhora, que em seus 36 anos de tempo teve a vida exposta nos últimos dias por causa de ínfimo particular/coletivo. Dada como raptada, sequestrada, morta, estuprada, desovada... Três dias depois da cidade vibrar com mais uma novela em tempo real, ela teria ligado pra filha adolescente e dito que está vivinha da silva e aparecida.
E, constrangida, tem de ir à delegacia para repetir ao delegado que problemas de dentro de casa a levaram a tomar um chá de sumiço. Imagino assim, não queria vestir a pele dela nesses tempos da vida privada conectada às redes sociais. Prefiro enfrentar a língua das vizinhas ou desafetos, que um dia morrerão pela própria boca. A Desaparecida do Cocó se pôs, supostamente, em dilemas nada fáceis. O primeiro: não tomar o chá de sumiço e continuar levando a vidinha de antes e nunca se perguntar se “conseguiu ser o que queria ser”, no fim de cada dia, e com quem está em seu entorno.
Ou o mais aperreante e inquietante deles: se dali pra frente, por conta do desaparecimento de impulso ou planejado, se livraria de uma condição incômoda e de abandono pessoal. A tal dívida com o futuro, narrada por Contardo Calligaris. Não sei o que vai ser daqui pra frente? É a opção mais arriscada e deslocante. Um impulso agressivamente amoroso do ponto de vista da tal felicidade clandestina e indizível.
Sim, Ana dos Suspiros também me mandou duas pedradas: no fim do dia, você já se pergunta se “amou como deveria amar?”. E, “se foi amado como queria ter sido amado?” Volto a mim e à Desaparecida do Cocó. “Demi, eu estava pensando aqui, depois do que a gente conversou. Talvez essa mulher do Cocó tenha se perguntado, na noite anterior ou no amanhecer seguinte, se ela estava sendo amada como desejava ser. E talvez ela tenha fugido dessa resposta. Sei lá. Que novela, não é? E fiquei com muita vontade de ler o final que você vai escrever para ela”, me escreveu Ana.
Pois é, Ana. Continuo sem saber ou querer responder porque a vida dela teve (ou tem) a ver com a nossa travessia. Nós é que tentamos nos enganar dizendo que é só dela. Torço pelo encontro dela com ela mesma.
Demitri Túlio
demitri@opovo.com.br
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