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Audifax Rios 09/11/2012

A taça dos cinquentanos

E lá se vão cinquenta anos, o Flórida Bar mudou de chão mas não de espírito
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Numa tarde já remota o hidroporto da Barra do Ceará recebia pequena multidão a espiar o por do sol, e não era o astro-rei a estrela que causava tanto frenesi. É que estava prestes a desembarcar, num hidroavião da Panair, nada menos que o craque do football association, Sá Filho (José Joaquim da Silva Sá), vindo de gloriosas jornadas em estádios do sul do País, quando envergava a camiseta do Clube de Regatas do Flamengo, no Rio de Janeiro, na década de trinta. O Mengão que tantas vezes erguera taças, as mais disputadas por este Brasil e em campos verdes da Latino América. Chegara por estas plagas praianas já no final do decênio, em 1939, mais precisamente, para defender as cores (?) do Ceará Sporting Clube onde, além de atleta, emprestou seu concurso como técnico, supervisor e diretor. Além de ser, por diversas vezes, convocado para defender (literalmente) a Seleção Cearense, uma das mais respeitadas no Norte e Nordeste.


Um dia Sá Filho arquiva as chuteiras, dá adeus às taças, faixas e outros troféus, futebol agora era saudade, aquela sensação que já nem sentia mais pelas origens cariocas. Fincara raízes na terra de Iracema, continuaria a praticar por estes sítios um jogo traçado estrategicamente, o cumprimento de sua jornada neste fabuloso planeta Terra. Sem perder os laços com amigos tantos, atados ao longo desses anos nesta Fortaleza ensolarada, ou não querendo deles afastar-se, usou de táticas outras que não as aprendidas nas linhas das doces arenas, atrair para seu meio-campo os companheiros inseparáveis. Resultado, abriu um bar/restaurante no centro da cidade onde já operavam tantos comércios similares, os ditos bares de homem, frequentados por políticos, empresários, artistas e, principalmente, desportistas. E o Flórida Bar (seria Jangadeiro porém chegara aventureiro mais afoito) veio a se inserir na imensa constelação boêmia onde fulguravam Belas Artes, Sombreiro, Fortaleza, Clube do Advogado, Frixtil, Ritz e Hotel Brasil. Instalado no número 38 da Rua do Rosário, a um quarteirão da Praça do Ferreira, o coração da efervescente metrópole, o Flórida Bar estava destinado a fazer história, tanto quanto seu mentor houvera traçado marcante trajetória na memória do futebol cabeça-chata.


E lá se vão cinquenta anos, o Flórida Bar mudou de chão mas não de espírito, conservou velhas cadeiras anatômicas daquelas que decoravam igrejas, entrouxou amarelados daguerreótipos e gigantescas panorâmicas do Leocácio Ferreira, o fotógrafo oficial da querida TV Ceará, canal 2, a Tupi do indiozinho maroto. E mais: trasladou fregueses fiéis e garçons qualificados, aves raras que compunham o patrimônio moral da casa. Daquela época ainda restam Madeirinha e Bein e a gerentona Maria das Dores, latifundiária agropecuarista do Vale do Jaibaras. Dos fregueses mais antigos ainda frequentam, embora já não tão assiduamente, Aluísio das Pinturas, o procurador Aldeir Nogueira Barbosa, Bira, jogador de futebol com passagem pelo Porto lusitano. E ainda Paulo Cirino e suas pastoras, o contador Bomilcar Leão, o memorialista Airton Fontenele, pra citar apenas os venerandos veteranos, personagens da vida desta Fortalezamada. E um outro craque do passado que brilhou após a passagem do Sá Filho, o peitudo centro-avante do Ferroviário da Barra do Ceará, Sport Clube do Recife, Vasco da Gama do Rio de Janeiro e Futebol Clube do Porto: Francisco Nunes, o consagrado Pacoti, artilheiro da Seleção Cearense em meados dos doirados anos cinquenta.


O Flórida, além de bar de homem, foi também um estabelecimento de família no sentido funcional. Do pioneiro Sá Filho, o comando passou para Sá Neto, conhecido aficionado do automobilismo, amigo do tricampeão de Formula 1, Ayrton Senna. Sá Neto faleceu vítima de desastre automobilístico e o manito Ermínio Sá, à época residente em Belém do Grão Pará, foi chamado às pressas para tocar o barco, no que se houve muito bem. Um bar de família, também, no sentido mais amplo: aos domingos, habituais fregueses podiam ser vistos tomando o rumo de casa levando à tiracolo a saborosa panelada que ainda hoje mantém a tradição: o misterioso tempero e o empenho com que é conduzido o processo de feitura. E cabe aí o dito popular: fazendo das tripas coração.


Com o tempo o centro da cidade entrou em decadência, grandes lojas, bancos, repartições mudavam-se para a Aldeota e outros bairros mais movimentados. O Flórida Bar não fugiu à regra, migrou para o polo turístico da Monsenhor Tabosa, estabeleceu-se na Rua Dom Joaquim, vizinho à conhecida Livro Técnico. Além dos antigos, novos fregueses se formaram no novo botequim numa salutar convivência. E muita música rolando como guarnição do tradicional cardápio. Que tem arrebatado taças e mais taças em certames etílicos e culinários. E de quebra um arrasta-pé aos domingos, tão eclético quanto os embalos das noites de sexta-feira comandados pelo Grupo Nobreza. E quando é tempo de folia a rua se transforma no quartel general da fuzarca, o grupo “Sou brega + quem não é?” tem garantido o bom o carnaval do Flórida pra lembrar os velhos tempos em que era reduto oficial do Rei Javeh, Primeiro e Único, lá pelo início dos conturbados anos sessenta.


O futebol, no entanto, não foi desprezado. Há, além do decor, um enorme telão que transmite jogos ao sabor das atuações dos clubes nos diversos certames e da euforia das torcidas de gregos e troianos. Ou melhor, alvinegros e tricolores. Embora as taças pareçam cada vez mais arredias, inacessíveis mesmo.


Mas há que registrar a presença constante de uma tribo fiel que faz ponto naquele pedaço, o Clube do Bode. Nascido na livraria vizinha e adotada por esta irmandade de garçons e cozinheiros, esta entidade etílico-cultural (como assim a nomeava o cabrito Airton Monte) ali se reúne, principalmente às sextas e sábados, para saudáveis saraus onde predomina bom proseado que vai da literatura à política; da música ao futebol; da vida privada à vida alheia. Com o perigo de tudo ser registrado no temido livro de atas que já atingiu o número 28, com mais de quinhentos relatórios manuscritos e autenticados. Com a frouxa direção do pai de chiqueiro mor Sérgio Braga; a persistência deste chiqueirador, o locutor que vos fala Audifax Rios e do pertinaz capataz Narcélio dos Anjos, seguem, impávidos colossos, os náufragos dessa insensata nau, navegantes do melhor quilate que ali cada vez mais fundamentam laços de uma sólida e fraterna amizade.


Pois bem, neste hoje o Flórida Bar comemora seu cinquentenário com a presença de várias gerações que se reaproximam para festejar o colossal espetáculo da vida em harmonia, paz e, sobretudo, alegria. Na ocasião serão recolhidos flagrantes fotográficos e depoimentos que complementarão o livro memorial que está sendo elaborado para melhor documentar essa longa travessia. Taças erguidas para o alto como os atletas faziam outrora com troféus conquistados em competitivos certames. Copa erguida ao pioneiro Sá Filho que, mesmo depois de abandonar os gramados, continuou vestindo as camisetas da cidade de Fortaleza e do estado do Ceará. Gesto imitado religiosamente por seus seguidores, Sá Neto e Ermínio Sá. Para a alegria de todos nós. E, como dizia o saudoso Rogaciano Leite, o filho, bebamos!

 

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