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Professor Pasquale 30/01/2012 - 01h30

Mais que uma simples questão

Na voz ativa, o sujeito é agente do processo verbal; na voz passiva, o sujeito é paciente, alvo do processo expresso pelo verbo

 

Há algum tempo, a Fuvest elaborou a seguinte questão: “Transpondo-se corretamente para a voz ativa a oração ‘para serem instruídos por um astrônomo’, obtém-se: a) para que sejam instruídos por um astrônomo; b) para um astrônomo os instruírem; c) para que um astrônomo lhes instruíssem; d) para um astrônomo instruí-los; e) para que fossem instruídos por um astrônomo”.


O caro leitor se lembra do tema voz ativa/voz passiva? Não custa relembrar, com dois exemplos bem simples: “Políticos inescrupulosos põem no lixo preceitos básicos da vida republicana” (voz ativa); “Preceitos básicos da vida republicana são postos no lixo por políticos inescrupulosos” (voz passiva). Lembrou? Na voz ativa, o sujeito (“políticos inescrupulosos”, no exemplo visto) é agente do processo verbal; na voz passiva, o sujeito (“preceitos básicos da vida republicana”) é paciente, alvo do processo expresso pelo verbo.


No texto do qual foi extraído o trecho abordado pela Fuvest (“Retalhos Cósmicos”, de Marcelo Gleiser), o sujeito da locução verbal “serem instruídos” é “grupos”. Pois bem. Se a banca pede ao candidato que passe a frase para a voz ativa, supõe-se que ela esteja na voz passiva, o que se comprova de imediato pela estrutura verbal empregada (verbo “ser” + particípio _”serem instruídos”). Essa “superdica” da banca permite ao aluno atento a imediata eliminação das alternativas “a” e “e”, em que os verbos continuam na voz passiva. Nelas, verifica-se o emprego da mesma estrutura típica da voz passiva (verbo “ser” + particípio _”sejam instruídos”, na “a”, e “fossem instruídos”, na “e”), o que significa que o sujeito continua sendo alvo do processo verbal.


As três alternativas restantes apresentam (todas) estrutura típica da voz ativa. O que as diferencia? É aí que entra a percepção aguda e visão ampla do candidato. De início, é preciso notar que na voz ativa o sujeito deve ser “um astrônomo”, agente do processo verbal em “para serem instruídos por um astrônomo”. Bem, se o sujeito de uma oração (seja lá qual for) é “um astrônomo”, o verbo é flexionado no singular, certo? Isso imediatamente exclui duas das três alternativas (“b” e “c”), já que nelas o verbo está indevidamente flexionado no plural (“para um astrônomo os instruírem” e “para que um astrônomo lhes instruíssem”, respectivamente). A proximidade do verbo com os pronomes “os” (da alternativa “b”) e “lhes” (da alternativa “c”) pode induzir o candidato a optar pela flexão do verbo no plural. Esse fenômeno é frequentemente explorado pelos vestibulares, em questões que abordam frases como “O nível dos rios subiram” ou “O valor dos aluguéis dos apartamentos nas áreas nobres explodiram”, em que se nota a (inadequada, indevida) concordância do verbo com o termo mais próximo.


A esta altura, você já sabe que a resposta só pode ser “d”, mas não custa observar pelo menos outro detalhe da questão: o emprego dos pronomes “os” (da alternativa “b”) e “lhes” (da alternativa “c”). O enunciado da banca da USP fala em transpor “corretamente”, o que pressupõe entender “corretamente” como algo equivalente a “de acordo com a norma culta” (ou coisa que o valha). Pois bem. Na língua culta, os pronomes oblíquos “lhe” e “lhes” não complementam verbos transitivos que não regem preposição, ou seja, verbos transitivos diretos. É esse o caso de “instruir” (se alguém instrui, instrui alguém, e não “a” alguém). Em outras palavras, construções como “Um astrônomo lhes instrui” não ocorrem na norma culta da língua, sobretudo na modalidade escrita formal, embora sejam comuns na oralidade de diversas regiões do Brasil.


O caro leitor deve ter percebido que o que parecia ser uma simples questão de passagem de uma voz verbal para outra na verdade exige o domínio das normas de concordância, do emprego de pronomes etc.


Até segunda. Um forte abraço.

 

Pasquale Cipro Neto
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