Mobile RSS

rss
Assine Já
ana miranda 08/09/2013

Eclipses no Ceará I

{'grupo': 'Colunista', 'id_autor': 16324, 'email': 'S/ Email', 'nome': 'Ana Miranda'}
Ana Miranda S/ Email
Compartilhar


É bem conhecido o eclipse solar de 1919, que foi observado em Sobral, quando ficou comprovada a teoria da relatividade de Einstein. Que fascinante! Coisas do Ceará! Mas antes houve outro eclipse observado a partir de terras cearenses. Ocorreu em 1893, e a comissão de astrônomos ingleses, Taylor e Shackleton, foi enviada para o distrito de Paracuru. A missão era tirar fotos da coroa solar, para comparação com fotos anteriores de outros eclipses.


Nessa época as expedições naturalistas tinham grande popularidade. Leitores europeus se encantavam com relatos de viagens, aventuras em países desconhecidos e distantes, mistérios da natureza desvendados pelas ciências. Livros com relatos de viagens eram vendidos aos milhares, passando de mão em mão. O Brasil era um lugar sedutor, tanto para cientistas como para os leitores de aventuras que viajavam sentados em suas poltronas. Naturalistas percorriam nossas terras em busca da exuberante natureza. O século 19 foi o século das ciências naturais. “Paris, capital das ciências!” Os naturalistas passaram, entretanto, a ser vistos com desconfiança, alguns julgavam que eles eram uma espécie de saqueadores de espécimes, formando e exportando coleções não raro vendidas a preços elevados. Mas não os astrônomos, que nada levavam, a não ser imagens um tanto abstratas e de certa forma poéticas, de um céu, astros, de fenômenos que pertenciam a todos. E as comissões astronômicas estavam no seu auge. Bastava a aproximação de um eclipse para as sociedades astronômicas moverem todos os seus esforços a fim de enviar estudiosos a lugares, mesmo longínquos e inacessíveis. A comissão de 1893 ao Ceará foi das mais dispendiosas, e realizada em circunstâncias desencorajadoras. Taylor e Shackleton precisaram atravessar longas distâncias marítimas carregando equipamentos frágeis e pesados, sempre com transbordo de bagagens. Seguiram de vapor até Pernambuco, dali a Fortaleza, e depois viajaram pela costa do Ceará até Parazinho, com dificuldades, como a falta de vapores, atrasos, problemas de bagagem, ou a recusa de nativos a ajudar no desembarque, nos dias de feriados da Páscoa.


Chegando afinal a Parazinho, a bagagem foi posta em jangadas de pau que precisavam passar por recifes traiçoeiros, e levada dois quilômetros acima, até Paracuru, em exóticos carros de boi. Foi difícil se construir os abrigos e montar os instrumentos, ajustá-los, numa situação climática adversa, com chuvas torrenciais e o céu continuamente nublado. Mas, também, podemos imaginar o encanto despertado pelas paisagens marítimas ainda puras, nossas praias de areias alvas e coqueirais, pedras, aldeias de pescadores, as bravas jangadas com suas velas brancas... E o contato com a gente do povo, as comidas deliciosas, peixe fresco torrado na trempe, farinha, pirão, e cajus, e violas e noites pontuadas com as mais nítidas estrelas que os ingleses só conheciam de nome.


Os cientistas traziam uma câmara prismática, um espectroscópio fotográfico precisando de adaptações, uma pequena luneta procuradora, e um siderostato a ser assentado sobre uma base de cimento. O tempo continuava nublado e caíam chuvas pesadas, era o mês de abril. Mesmo assim, os astrônomos obtiveram as fotografias, com a ajuda de Furley, um engenheiro inglês morador de Fortaleza, que trabalhava na Ceará Harbour Corporation Limited; ele serviu de tradutor e ajudou nas operações de montagem do acampamento e tudo o mais. Essas fotos foram reveladas no laboratório de Niels Olsen, um fotógrafo dinamarquês que também vivia em Fortaleza. Os resultados da expedição foram publicados na revista científica Philosophical Transactions e relatados no jornal e em reuniões da Sociedade Real de Astronomia. Os cientistas anotaram não apenas os resultados obtidos nas observações, como interessantes aspectos da viagem.


Também uma comissão brasileira acampou em Paracuru, tendo contato com os ingleses, em visitas cordiais e de troca de conhecimentos. Era comandada por Henrique Morize, diretor do Observatório Nacional do Rio de Janeiro. Há um ditado que diz, “A vida imita a arte”, mas no caso a ciência seguiu a vida. Dizem que a caminho do Ceará o doutor Morize conheceu e se apaixonou por dona Rosinha, uma sobralense que vivia na Bahia, e com ela se casou. Teria sido esse amor, que durou toda a vida do casal, o que abriu caminho para a observação do eclipse de 1919 em Sobral. Bem dizem os sábios, citando Alexandre Dumas pai: Cherchez la femme! Há uma mulher por trás de todos os casos.

 

"O Brasil era um lugar sedutor, tanto para cientistas como para os leitores de aventuras"


"Os astrônomos nada levavam, a não ser imagens um tanto abstratas e de certa forma poéticas"


"Podemos imaginar o encanto despertado pelas paisagens marítimas ainda puras, areias alvas e coqueirais"

 

"Dizem que a caminho do Ceará o doutor Morize conheceu e se apaixonou por dona Rosinha, uma sobralense"

> TAGS: ana miranda
Compartilhar
espaço do leitor
Nenhum comentário ainda, seja o primeiro a comentar esta notícia.
0
Comentários
300
As informações são de responsabilidade do autor:

ana miranda

RSS

ana miranda

ana miranda

Escreva para o colunista

Atualização: Domingo

TV O POVO

Confira a programação play

anterior

próxima

Divirta-se

Newsletter

Receba as notícias da Coluna Ana Miranda

Powered by Feedburner/Google

Mais comentadas

anterior

próxima

Mobile RSS

rss Assine Já