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Airton Monte 06/08/2012

O Patriota

Para nossa festeira tribo tupiniquim, o 7 de setembro foi, pouco a pouco, perdendo o seu real significado
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Claro que eu bem sei que já é por demais antecipado e adiantado escrever, falar a respeito daquela que aprendemos, desde a mais tenra infância, tanto em casa como na escola, ser a data magna de nossa brasílica história. Acontece que, talvez por ser um mau patriota, quase sempre me passa meio despercebido o Dia da Independência do Brasil, quando nos tornamos, enfim, uma nação não tanto independente de Portugal, naquela longeva época. E hoje, essa nossa independência ainda oscila nos pratos da balança do possível em relação a outros países com quem negociamos no mercado internacional e político. Pois é. O 7 de setembro, que chega logo depois das Olimpíadas, para a maioria dos brasileiros, não tem maior significado do que o aguardado início de mais um feriadão, dos inúmeros que povoam o nosso pátrio calendário. Até posso estar redondamente enganado em minha pessimista opinião, mas sinceramente vejo-me obrigado a constatar que para nossa festeira tribo tupiniquim, o 7 de setembro foi, pouco a pouco, perdendo o seu real significado. Há muito deixamos de comemorá-lo investido com toda a pompa e circunstância de que é historicamente merecedor. De quem é a culpa por nutrirmos tal descaso? Não me perguntem, amigos, porque verdadeiramente não sei responder assim nas buchas.


Diferentemente de outros países e de outros povos, não comparecemos em massa ao desfile das Forças Armadas e dos garbosos estudantes dos colégios públicos, marchando elegantemente varonis diante dos palanques armados pelas autoridades, que ficam cheios de políticos enquanto grande parte das ruas permanece praticamente vazia feito um amontoado de bocas banguelas. As pessoas não se vestem orgulhosamente de verde-amarelo ou em trajes de gala, pois as bermudas predominam entre os raros assistentes. O desfile é apenas uma paradinha discreta, rápida, antes de seguirem rumo à praia ou ao boteco mais próximo. A bandeira nacional não tremula, altaneira, na frente das casas nem nas varandas e janelas dos apartamentos. O 7 de setembro é como se não fosse. A cidade se esvazia com a fuga dos cidadãos para as praias e os sertões, todos doidinhos para desfrutar de uma quase semana de folga, em que fazem de tudo, menos pensar no Brasil. Pensar no Brasil deve cansar a maioria dos bestuntos nacionais. Por mais nacionalistas que sejam. E os que não podem ou não querem viajar, locupletam os bares e restaurantes, ensaiando um pequeno Carnaval fora de época. E haverá época para o brasileiro brincar o Carnaval, qualquer Carnaval? Duvido muito. O dia da nossa independência tornou-se apenas uma mera desculpa para se beber até o último copo e festejar a distância do trabalho e dos estudos.


Será realmente um fato por demais incontestável que o patriotismo dos brasileiros somente nasce, brota, floresce, viceja, desabroche de quatro em quatro anos durante a Copa do Mundo? Quando as cores nacionais enfeitam esta Taba de Tupã do Oiapoque ao Chuí. Penso que nem mais tamanho e tradicional fervor patriótico acontece como acontecia dantes neste patético e imprevisível Quartel de Abrantes. Também, não é para menos, pois muito tempo faz que a nossa amada seleção se nega a dar-nos a alegria de uma conquista por mais chinfrim que seja, se distanciando cada vez mais do coração do povo pelos motivos que estamos cansados de saber. Do meu, inclusive, que continuo apaixonado pelo glorioso esporte bretão. Além do que, pra piorar a situação, se já somos um povo desprovido de memória, a nossa histórica amnésia recorrente anda ficando cada vez pior. Os nossos heróis pátrios vão sendo gradativamente esquecidos geração após geração e se tornando uns ilustres desconhecidos, como se nunca houvessem existido e lutado para fazer do Brasil um país grande e justo. Uma nação sem memória é uma nação sem identidade própria, sem eira nem beira. Condenado a repetir indefinidamente os seus recorrentes fracassos, mesmo os mais retumbantes.


E assim, desmemoriados, perdidos de nossa raiz, tendemos a nos transformar num simulacro triste de nós mesmos. Um bando de desarvoradas sombras nas paredes da caverna de Platão. Chego a pensar que nosso nacionalismo é de fancaria e que não amamos o Brasil como deveríamos naturalmente amá-lo e respeitá-lo. Quem sabe porque pensamos que o Brasil não nos ama tal qual o merecemos. Todavia, temos orgulho de nosso famoso, popularíssimo “jeitinho brasileiro”, que sempre quebra o nosso galho quando dele precisamos fazer uso utilitário e que se dane a ética, uma palavrinha quase riscada do nosso dicionário usual de costumes, infelizmente. Muitos de nós ainda creem que o futuro do Brasil é como um filho de uma mulher estéril: jamais chega. Muitos de nós, embora neguem com veemência quando perguntados, têm vergonha do Brasil e de ser brasileiros da gema. Querem ser tudo, qualquer coisa, menos brasileiros. Muitos de nós costumam fazer piada com a expressão “Brasil, país do futuro”. Mal sabem esses desavisados ou olvidam que esse tal futuro já chegou faz tempo, que o futuro é hoje. E fomos nós, brasileiros, que o fizemos e construímos da maneira que ele é. E pronto.

 

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Jonas Gomes 06/08/2012 12:04
Senhor Airton Monte, falaste tudo em "Quem sabe porque pensamos que o Brasil não nos ama tal qual o merecemos." Talvez não comemoramos o 7 de Setembro da mesma forma que outras nações comemoram sua independência porque sabemos que no dia 8 a realidade vem à tona.
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