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02/05/2000 02/11/2012 - 08h00

Entrevista de Tancredo Neves

Demonstrando segurança no conhecimento dos problemas nacionais e desembaraço nas respostas dadas às muitas perguntas que lhe foram formuladas, o presidente eleito Tancredo Neves falou ontem, no plenário da Câmara, durante 90 minutos, a jornalistas do Brasil e do Exterior, na primeira entrevista coletiva concedida depois de sua vitória
Acervo O POVO
Página do Jornal O POVO, publicada em 02/05/2000
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Jornal O POVO, 02/05/2000

Demonstrando segurança no conhecimento dos problemas nacionais e desembaraço nas respostas dadas às muitas perguntas que lhe foram formuladas, o presidente eleito Tancredo Neves falou ontem, no plenário da Câmara, durante 90 minutos, a jornalistas do Brasil e do Exterior, na primeira entrevista coletiva concedida depois de sua vitória. E traçou, em linhas gerais, sem tempo para descer a detalhes, os pontos básicos de seu Governo. A inflação será combatida por todos os meios e modos de que dispuser, foi a afirmação inicial de Tancredo, consciente que está de que terá de ser por aí o começo da arrumação da economia. A inflação precisa ser contida, para impedir que suas funestas conseqüências continuem a flagelar o povo brasileiro. Claro que essa meta não poderá ser alcançada em poucos dias, porque é tarefa para meses e da qual o povo tem de participar.
Tancredo Neves, já sentindo a responsabilidade que lhe pesa aos ombros, declarou que os problemas nacionais serão atacados com energia e realismo, mas sem medidas demagógicas que podem surgir efeitos de natureza emocional nos primeiros dias, seguida de insucesso que terminam desacreditando o governante que as adota. Reafirmou sua disposição de comandar as reformas políticas e sociais que o Brasil espera e com as quais se comprometeu no curso da campanha eleitoral.

A impressão deixada por Tancredo Neves, nessa sua primeira entrevista coletiva depois de escolhido para a Presidência da República, foi a de um estadista que sabe o que quer e está preparado para dirigir o seu País.

Barbosa Lima Sobrinho: O privilégio de fazer a primeira pergunta me dá o direito de felicitá-lo pela vitória na última eleição indireta do Brasil, que teve todas as características e toda a repercussão de uma eleição direta. E como me cabe fazer a primeira pergunta, eu me situo, no campo da inflação, que é o maior problema que o Brasil encara nesse momento: com uma inflação de 220 por cento, a maior já verificada no Brasil, e com o compromisso de procurar combater a recessão e proporcionar novos ambientes aos empregos e aos salários do operariado nacional, eu gostaria de perguntar em que momento as medidas tomadas no seu governo irão se refletir em realidades perceptíveis para todos os brasileiros e para todas as famílias que acompanham a nossa nacionalidade?

Tancredo: Antes de mais nada, eu quero agradecer, a oportunidade de poder falar à imprensa do meu País e à imprensa internacional, aqui representada, logo em seguida à minha eleição para Presidência da República. Quero, com isso, apresentar o meu apreço e a minha admiração a esses que se dedicam às atividades jornalísticas. E não encontraria maneira mais expressiva para simbolizar todos esses meus sentimentos, a não ser, exaltando a figura dessa exemplar personalidade brasileira que é Barbosa Lima Sobrinho. Ele é um dos mais intransigentes, dos mais decididos, dos mais determinados lidadores da democracia brasileira. Ele é um dos mais devotados defensores da liberdade de imprensa em nosso País. Ele mesmo, pela sua própria vocação e convicção, é uma das penas mais ilustres, mais vibrantes e das mais corajosas de que se honra a imprensa brasileira. Ao iniciar essa nossa conversação, eu queria, de início, deixar bem assentado que a grande tarefa do meu governo deve ser a retomada do crescimento econômico, que precisará resultar na criação de novos empregos, na melhor remuneração da força do trabalho, de uma melhor distribuição da renda nacional. Essa retomada do processo de crescimento não se sustentará em bases sólidas, sem que haja uma reversão do processo inflacionário, o saneamento financeiro do setor público e se mantenha o equilíbrio das contas externas. Passo, agora, a responder a primeira pergunta formulada aqui, pelo nosso eminente mestre, Barbosa Lima Sobrinho: como conciliar uma inflação que já vai a 230 por cento com o processo da retomada do desenvolvimento econômico? Ainda há pouco, falando à imprensa do País, eu tive a oportunidade de responder a essa pergunta, de maneira muito explícita, muito clara, e muito objetiva. Eu vou me permitir valer-me dessas declarações, pois que elas guardam perfeita sintonia com a interpelação muito honrosa que acaba de me ser feita. A inflação, dizia eu, tem tantas e tão grandes repercussões negativas, sobretudo para os setores mais carentes da população, que torna dispensável discutir a necessidade de combatê-la com rigor e persistência. A inflação tem componentes políticos, econômicos e até psicológicos. Para combatê-los, temos que atuar simultaneamente, com a mesma força, nos três campos. No campo político, cabe-nos persuadir, através do diálogo, as lideranças partidárias, e diversos segmentos representativos da sociedade civil, de que a vitória sobre a inflação exige o encorajamento de todos. Não é justo que esses custos recaiam unicamente sobre os ombros de um determinado segmento social. No campo econômico, a ênfase tem de concentrar-se no esforço para a melhor produtividade dos gastos públicos, com combate sistemático e todo tipo de desperdício; criteriosa seleção de prioridades na aplicação de recursos, privilegiando aquelas que gerem retornos mais rápidos; utilizem mão-de-obra intensiva e tenham maior repercussão social. Deve existir maior controle na expansão de atividade de Estado, sobretudo aquelas não diretamente vinculadas às funções privativas do poder público que está longe do controle desejável, ao contrário do que apregoa o Governo. A política monetária e creditícia tem de ser orientada de maneira a reduzir o estritamente indispensável a emissão de títulos da dívida pública e direcionar o crédito para os setores que ofereçam maior contribuição, mais geração de empregos e de renda. No chamando componente psicológico, o êxito da política antiinflacionária exige que o Governo seja exemplar em matéria de austeridade e de eficiência administrativa, como forma de infundir na população a indispensável confiança nas medidas que venha a adotar para conter a alta dos preços. Seja credibilidade governamental, qualquer política antiinflacionária está fadada ao fracasso. E essa credibilidade somente será obtida através de um comportamento sóbrio, sereno, democrático, firme e coerente com todos os que detenham a função de Governo. Pergunta o nosso eminente mestre que medidas devem ser tomadas visando a retomada do desenvolvimento econômico e a criação de empregos. Eu respondo: A retomada do desenvolvimento e a elevação do nível de empregos constitui, realmente, prioridade indispensável para que possamos superar a crise, equacionar os problemas que nos afligem, e sobretudo, restituir a esperança ao nosso povo. Entretanto, a eficácia de qualquer mudança política econômica está sujeita a precondição sem a qual, a simples adoção de alternativas técnicas será condenada ao insucesso. Refiro-me a preliminar política que envolve os aspectos de confiança, credibilidade e apoio popular. Assegurada essa preliminar e restabelecida a credibilidade, a situação poderá desanuviar-se e as alternativas técnicas passarão a adquirir as condições indispensáveis. Por isso mesmo, vou constituir um Ministério de alta qualificação e indiscutível idoneidade. Com a ajuda desta equipe, e com base nos estudos, que, até lá, já estarão inteiramente concluídos, serão imediatamente implementadas as medidas indispensáveis à retomada do desenvolvimento e a elevação do nível de emprego. Que medidas são essas? Bem, não obstante as dificuldades com que nos debatemos e a maior inflação de nossa história, existem condições que nos permitem antever a possibilidade de uma recuperação econômica. O ciclo dos grandes investimentos necessários à construção de nossa infra-estrutura e a instalação de capacidade satisfatória, às áreas de insumos básicos, bens de capital, etc., está praticamente encerrado. Existe, aliás, capacidade ociosa em diversos setores industriais. Não necessitaríamos de grandes investimentos. Se orientarmos a retomada em direção aos setores que, além de absorver maior quantidade de mão-de-obra, atendam simultaneamente, a satisfação das carências básicas da população, em matéria de alimentação, vestuário, educação, habitação, saúde pública e saneamento. O País tem capacidade industrial ociosa e alguma disponibilidade para o crescimento das importações, o que garante o aumento da produção, sem pressões inflacionárias, sem danos maiores ao equilíbrio das contas externas. Além disso, de imediato, precisando lançar um programa baseado em obras públicas, espalhadas por todo o território nacional, sobretudo em áreas carentes voltadas para o saneamento, melhorias urbanas, programas de habitação popular, o que beneficiarão as classes sociais menos favorecidas. Essas obras públicas consumirão grandes quantidades de mão-de-obra serão possibilitadas financeiramente por um remanejamento de despesas públicas desviando verbas que hoje são alocadas ao consumo suntuário do Governo ou em obras faraônicas e desnecessárias. Este programa terá, ainda, o mérito de ser executado descentralizadamente, pelos Estados e Municípios através da transferência dos recursos. Pretendo ainda adotar, tão logo seja empossado, medidas que resultem no estímulo à indústria da construção civil, sobretudo de habitação popular, tendo em vista a sua contribuição para a absorção da mão-de-obra, do apoio às pequenas e médias empresas, tradicionalmente utilizadoras de mão-de-obra, através de maior disponibilidade de créditos a eles dirigidos no decidido apoio à agricultura, imprescindível para a garantia do abastecimento da exportação e do emprego, sobretudo, assistindo ao pequeno e médio produtor de alimentos. Indaga, ainda, o eminente mestre qual o lapso de tempo necessário para se promover o ajustamento necessário do equilíbrio financeiro e econômico do país. É muito difícil prever-se, com precisão cronométrica, o que se pode alcançar, nesse objetivo. Podemos, porém, assegurar que, o que depender do Governo, todas as medidas serão tomadas com rigor real no seu tempo, para que nós encontremos, realmente, o equilíbrio da economia brasileira. É verdade que a inflação brasileira não tem apenas causas internas. Ela tem, também, causas externas. E estas escapam ao nosso controle. Mas tudo que pudermos fazer, para neutralizar, internamente, os efeitos de medidas externas que vem impactar o nosso processo inflacionário, será feito também, com a maior decisão e a maior determinação.

Audálio Dantas - As indagações que aqui trago, seriam neste momento a de todos os 25 mil jornalistas brasileiros, cuja participação nas lutas pela democracia, todos nós sabemos, custou a muitos de nós inclusive a vida, como aconteceu com o jornalista Wladimir Herzog em 1975. Em nome desses jornalistas, trago a Vossa Excelência duas indagações: A primeira é sobre a questão da legislação de informação no País. Toda a legislação autoritária e cerceadora da liberdade de informação, montada nesses 20 anos, continua em vigor, inclusive o decreto-lei que instituiu a censura prévia em 1969. Ao mesmo tempo os jornalistas brasileiros, e certamente a sociedade como um todo, e ao próprio regime democrático quais as medidas que o Governo de Vossa Excelência pensa tomar, no sentido de que sejam estabelecidas essas políticas principalmente no que diz respeito ao acesso aos canais de rádio e televisão, hoje e excessivamente mantidos na mão do Poder Executivo, e privilegiadores de certos grupos, e não da sociedade como num todo?

Tancredo: Podemos de imediato realizar algumas reformas na Lei de Imprensa para democratizá-la, mas tenho para mim, que só com a implantação da assembléia nacional constituinte, nós vamos realmente fixar parâmetros definitivos, para que tenhamos uma Lei de Imprensa à altura da nossa tradição e mais do que isso, à altura da nossa tradição e mais do que isso, à altura da nossa cultua. A que aí está, se fosse realmente aplicada, seria um vexame e um opróbrio para a cultura brasileira. A segunda pergunta diz respeito à democratização dos instrumentos de comunicação. Evidentemente nesse setor prevalece com a maior intensidade ainda o espírito autoritário. Sabemos que as concessões de rádio e de televisão são distribuídas por esses critérios, exclusivamente políticos partidários e até personalistas. A primeira idéia que me ocorre sem entrar no exame detalhado da matéria através da consulta feita a entidades de classes nelas interessadas, me parece a criação de um Conselho Nacional de Comunicações que tenha realmente participação direta, não apenas na decisão da concessão de rádio e de televisão, mas sobretudo, na fiscalização do seu funcionamento.

Carlos Castelo Branco - Eu pergunto ao presidente Tancredo Neves se ele pretende manter, no exercício do Governo, a mesma estrutura dos serviços de assessoramento da Presidência da República, em especial do Serviço Nacional de Informações, e se em caso afirmativo, o senhor pretende manter o status de Ministro dado atualmente ao Chefe desse serviço.

Tancredo - Respondo com a maior honra à pergunta que me é feita por esse notável jornalista que é Carlos Castelo Branco. O entendimento do Chefe da Nação com a Imprensa, é sempre feito nos regimes democráticos através de padrões previamente acertados. Decorre realmente de entendimento entre o Governo e os jornalistas ou as entidades que os representam. Posso, não obstante, assegurar que o tratamento que pretendo manter com a imprensa no País, não será em nenhum momento inferior àquele dado pelos presidentes das nações democráticas do mundo, como na França, como na Itália, como na Inglaterra e como nos Estados Unidos. Quanto ao processo de serviços de comunicação feito realmente hoje, ainda em termos muito rígidos, é nosso pensamento, em contato com jornalistas e suas entidades de classe, adotar o processo mais eficiente para que esse entendimento possa ser mantido sempre em nível de cordialidade, de bom entendimento e de competência. Com relação ao Serviço Nacional de Informação eu tenho que alegar o seguinte: em primeiro lugar, todas as nações do mundo possuem seu Serviço de informação. Não há nenhuma nação que possa dele prescindir; os Serviços de Informações mais eficientes são os das Repúblicas Socialistas. Nenhuma nação que atingiu o estágio e a importância que o Brasil tem hoje no conceito internacional pode prescindir de um Serviço de Informação. O mal não está no Serviço de Informação, desde que ele seja exercido, executado e praticado democraticamente. É que no Brasil ele assumiu um caráter policialesco. Um caráter profundamente vexatório e violentador das nossas tradições democráticas. O que nós pretendemos é de imediato criar o Ministério da Segurança Nacional.

Agência de Notícias Espanhola - O seu partido propôs o engajamento da Nova República, na luta pela democracia no cone sul. Eu queria perguntar ao senhor o que vai fazer concretamente em defesa das liberdades ou dos povos que lutam pela liberdade na América do Sul?

Tancredo - Bem, o progresso da luta pela democracia no Cone Sul está hoje, mercê de Deus, muito avançado. A Argentina é hoje realmente uma nação na plenitude de um regime democrático. O Uruguai, dentro em breve, vai empossar um presidente eleito em toda a sua força para exercer um governo plenamente democrático. Onde nós temos realmente problemas é no Chile. E a posição do Governo brasileiro e de toda a consciência nacional é de apoio intransigente às forças democráticas que lutam nesse país pela restauração das instituições livres.

Agneio Alves - Vossa Excelência enfatizou aqui, na primeira resposta, que a retomada do desenvolvimento é a meta principal. Eu pergunto a Vossa Excelência: e o Nordeste, como vai se inserir nessa retomada de desenvolvimento para a nova República brasileira?

Tancredo - O processo do Nordeste, eu tenho dito e de maneira mais enfática possível que será a primeira, a mais importante, e a mais absoluta de todas as prioridades do meu Governo. O Nordeste é um caso especial, nós nos temos entregue ao estudo dessa região brasileira com o maior empenho, maior interesse. Ainda quando Governador de Minas, elaboramos um projeto de exame da conjuntura nordestina, e esse projeto foi levado à consideração do Conselho da Sudene. Esteve e está em debate nas Universidades do Nordeste, e nas entidades de classe, e lá nós mostramos que, evidentemente, o problema do Nordeste pela sua complexidade exige realmente medidas de uma abrangência total. O maior problema do Nordeste não é a seca, não é a carência de água. O maior problema do Nordeste é a assistência, a proteção e a colocação do homem em padrões compatíveis com a sua dignidade. Nós temos que valorizar o homem nordestino. E para isso nós temos de adotar, além das políticas clássicas de combate às secas, de todos conhecidas, um vasto programa educacional e de recuperação, social e humana daqueles nossos irmãos.

Sônia Carneiro - Rádio Jornal do Brasil: Depois de 21 anos, a eleição de um civil representa a restauração parcial ou integral da democracia no Brasil e o que ainda falta? Qual a avaliação que o senhor faz, hoje, da Revolução de 64?

Tancredo: A avaliação da revolução de 64 demandaria uma exposição longa e que não poderia ser feita num debate que exige realmente o aproveitamento de tempo para que todos possam fazer as suas indagações e ter as suas respostas. Mas poderíamos resumir a Revolução de 64 no seu aspecto político e no seu aspecto material. No aspecto político foi um retrocesso. No aspecto político foi realmente uma usurpação dos direitos das liberdades democráticas. No aspecto político foi realmente um retrocesso de conquistas democráticas que nós tínhamos, até como conquistas definitivas. Mas no aspecto material seria injustiça se negássemos que ela trouxe realmente um grande avanço em alguns setores como o das telecomunicações, setores da energia elétrica, setores de vias de comunicação e foi realmente uma contribuição que nos colocou de uma posição de vigésima oitava nação do mundo em termos de produto interno bruto, para sétima posição hoje, entre as nações do mundo, em produto interno bruto. É um velho tema. E a velha discussão política do que seja mais importante: restrição à liberdade e eficiência administrativa ou mais liberdade com restrição à eficiência administrativa. Evidentemente que todos nós sabemos, como democratas que somos, que não compensaram as vantagens de ordem material com terríveis restrições impostas à Nação nesses últimos vinte anos.

Miro Teixeira - Rede Bandeirantes: Presidente, em seu discurso o senhor fez menção aos trabalhadores, que foram muito importantes no começo de sua vida pública, e que, ao longo de sua vida pública, também, o senhor procurou sempre, corresponder a essa confiança. Ocorre que os trabalhadores vêm tendo seus salários achatados, confiscados e têm sido vítimas até de fraudes, como houve a fraude denunciada em 1973, de que os índices para os reajustes salariais foram adulterados. Existe alguma esperança, Presidente, de esses índices serem corrigidos e dos salários dos trabalhadores voltarem a ter, realmente, o poder de compra que deveriam ter hoje, corrigindo a inflação?

Tancredo: Bem, o problema salarial, todo mundo sabe, é dos mais graves, dos mais complexos em nosso País. Nós sabemos muito bem, pelo estudo dos economistas, de técnicos e "experts" e por essa grande organização brasileira que é o Dieese, que é realmente um instrumento dos mais eficientes no esclarecimento de pontos ambíguos e obscuros da economia nacional, que o limite do salário é a inflação. Na medida em que o salário acompanha um índice inflacionário e não ultrapassa esse índice, ele não inflaciona. Mas, todas as vezes que o salário ultrapassa o índice inflacionário, ele inflaciona. Quer dizer, que nós estamos num jogo perigoso, porque dando salários nominais aos trabalhadores, nem sempre nós estamos dando os salários efetivos e salários reais. O problema, por conseguinte, do salário brasileiro, é fazer com que a inflação se elimine e nós possamos combater o custo de vida, para que ele esteja compatibilizado com o salário do trabalhador. Todas as vezes que nós pudermos reajustar o salário do trabalhador, até aquele limite, em que ele não ultrapasse a faixa vermelha de inflação, nós o faremos e o faremos com o coração em festa. Mas não vamos iludir o trabalhador, dando a ele falsos salários, salários meramente numéricos, que vão sempre tendo com o crescimento da inflação, cada vez menos poder aquisitivo. O problema salarial do Brasil está por conseguinte, em conseqüência do saneamento da economia nacional. E os trabalhadores são os maiores interessados em que se promova esse saneamento financeiro do País, porque ninguém consegue realizar o milagre de um salário elevado, sem promover uma inflação muito elevada. O exemplo mais recente é a Argentina, em que uma política salarial adotada, para atender a reivindicações dos seus sindicatos fez com que, uma inflação de 300 por cento chegasse a uma inflação de 750 por cento. A Argentina tem 15 milhões de habitantes, o Brasil tem 130 milhões de habitantes. Uma inflação desse nível talvez a Argentina possa suportar, mas o Brasil não tem condições de suportá-la.

Manuel Vilela - Ao responder a primeira pergunta, o senhor fez referência a programas para gerar empregos, no entanto quase sempre esses programas dão oportunidade de emprego à mão-de-obra pouco qualificada. Como seu Governo encara a falta de oportunidade do mercado de trabalho aos milhares de jovens que se formam anualmente em nossas universidades?

Tancredo: Tem só uma saída, meu caro Vilela. É promover o desenvolvimento econômico. O desenvolvimento econômico, ele não absorve apenas a mão-de-obra técnica profissional de alto nível. O que nós não podemos é continuar na situação que estamos: fazer da recessão um instrumento de combate à inflação, por que através dela nós apenas ampliamos a área do sofrimento, a área da miséria e a área do desemprego. Sobretudo desse desemprego de profissionais altamente qualificados, que estão aí hoje condenados à marginalização social.

Murilo Melo Filho - Manchete: Dr. Tancredo, o senhor foi eleito num clima de grande esperança e expectativa populares, que estão aí aguardando o verdadeiro milagre. Eu lhe pergunto então: quais as medidas de impacto e de emergência que o senhor pretende adotar logo depois de sua posse a fim de evitar uma decepção popular?

Tancredo: Nós não temos a preocupação de realizarmos medidas de impacto apenas por efeito demagógico. Porque isso seria agradar o povo num primeiro momento e depois gerar para o futuro uma decepção ainda maior. Mas realmente nós estamos muito preocupados com os problemas sociais do Brasil. E medidas já estão sendo postas em prática para assegurar para o povo mais alimentação, assegurar ao povo melhores condições de moradia, implantando uma nova política no BNH. E sobretudo assegurar ao povo a absoluta segurança de uma previdência social mais adequada às suas necessidades.

Agência Internacional Italiana (Ansa). Sr. Presidente, ante a hipótese de que o Brasil não pode cumprir seus compromissos internacionais, que posição adotaria seu governo na indicação de um bloco latino-americano, para o tratamento da dívida externa?

Tancredo: Se nós não pudemos pagar os compromissos assumidos pelo Brasil, hipótese que eu considero muito remota, porque a nossa potencialidade é, realmente, impressionante, só nos resta o caminho da renegociação. É dizer, realmente, aos credores que nós não podemos pagar e que só podemos pagar, dentro de determinadas condições, apresentar a esses credores essas condições, e em torno delas, iniciarmos um longo contencioso. Não é do interesse dos credores levar o Brasil ao estrangulamento. Da mesma maneira que não é interesse do Brasil criar o pânico no sistema monetário internacional. Nós haveríamos, nesta hipótese extrema, de encontrar a fórmula e a situação latino-americana, eu acho que, realmente, é um dos aspectos mais importantes da integração continental.

Lígia Girão - Rádio Globo: O slogan da sua campanha foi: Mudança Já! O que muda, prioritariamente, no Brasil, a partir de 15 de março?

Tancredo: Primeiro, a mentalidade; segundo, o comportamento; terceiro, o estilo de Governo; quarto, o atacamento a todos os direitos e liberdades democráticas, no espetáculo mesmo, que nós estamos aqui assistindo e que acho que há 20 anos não se realiza igual, no Brasil. As iniciativas que são tomadas desde o primeiro momento, para que as reformas institucionais e as reformas sociais sejam submetidas a considerações do Congresso, para obter a colaboração dele, para que essas mudanças não fiquem apenas em palavras, mas também, em institutos legais.

Meia esquerda
Tancredo de Almeida Neves nasceu a 4 de março de 1910, em São João Del Rey, cidade do Interior de Minas Gerais que se acostumou ao som de sua flauta e às suas jogadas pela meia esquerda do Esparta Futebol Clube. Seu sonho era singrar os mares. No final dos anos 20, classificou-se em 26º lugar num concurso da Marinha, quando só havia 25 vagas. Alguns dias depois, recebeu o comunicado de que um dos aprovados tinha desistido. Mas era tarde: o correio atrasara e ele perdera o prazo para se apresentar.

"Varguista"
Desde cedo, Tancredo nunca escondeu sua admiração pelo presidente Getúlio Vargas. Ele se confessava um "varguista" e dizia que "Getúlio foi o melhor" presidente que o Brasil já teve. Foi Getúlio que, em 1953, o lançou como um nome nacional ao escolher para ministro da Justiça. Tancredo era, então, um desconhecido deputado federal do Partido Social Democrático (PSD) mineiro.

Vida pública
Em cerca de 50 anos de vida pública, Tancredo foi vereador, deputado estadual, deputado federal e ministro da Justiça. Após o suicídio de Getúlio Vargas, passou a articular a candidatura de Juscelino Kubitschek. A empreitada deu certo, mas Tancredo perdeu para Magalhães Pinto o governo de Minas, em 1960. A imagem do conciliador foi consolidada na experiência como primeiro-ministro, chefiando um gabinete de união nacional, com PSD e UDN governando juntos.

Rumo à presidência
Após o golpe militar, em 1964, Tancredo se notabilizou como um dos principais nomes da oposição. Em 1982, elegeu-se governador de Minas e, pacientemente, pacificou a política estadual. A campanha das Diretas Já o projetou na disputa pela presidência da República. Posteriormente, o senador Antonio Carlos Magalhães chegou a dizer que Tancredo trabalhou nos bastidores pelas indiretas, por achar que teria mais chances de se eleger no Colégio Eleitoral.

"Com medo do povo"
O presidente do PT, Luis Inácio Lula da Silva, disse que não lhe causou surpresa a revelação de ACM, de que Tancredo trabalhou pela rejeição da emenda das diretas para presidente da República. "Isso nem precisava (ACM) falar". Lula contou que, no comício de Belo Horizonte pelas diretas, Tancredo o chamou num canto do palanque e diante da praça lotada perguntou: "E agora, o que vamos fazer com esse povo?" Segundo Lula, Tancredo "ficou com medo do povo".

Operação negociada
A saúde de Tancredo ia mal como presidente eleito. Ele postergou uma cirurgia para evitar uma crise institucional. Tentou negociar o adiamento da operação, que os médicos consideravam urgente. Pedia que o segurassem até subir a rampa do Planalto. Sairia direto do gabinete para o hospital. No entanto, na véspera de assumir o cargo, foi levado ao Hospital de Base de Brasília com dores na região do intestino. Sucessivas cirurgias foram realizadas até ele ser transferido para o Instituto do Coração, em São Paulo.

Junta médica sob censura
Um posterior relato mostrou que a junta médica foi mantida sob censura. As informações sobre a saúde do presidente eleito eram filtradas pelos familiares e assessores de Tancredo. Os boletins emitidos para a imprensa eram falsos. A montagem da farsa contou com a colaboração dos médicos, pressionados pelo argumento de golpe militar. Após o episódio, todos os médicos foram julgados pelo Conselho Federal de Medicina. Foram considerados culpados de transgressão ética.

100 mil pessoas no cortejo
Foram 39 dias de uma intensa espera pela melhora de Tancredo Neves. Mais tarde soube-se que ele tinha um tumor no abdômen. Não houve jeito. Diante de uma comoção nacional, o cortejo fúnebre de Tancredo reuniu mais de 100 mil pessoas. Sua imagem acabou sacralizada. José Sarney, seu vice, tornou-se o primeiro presidente civil após os 21 anos de regime militar. A democracia foi restaurada, mas o alto índice de inflação foi a maior lembrança deixada pelo governo de Sarney.

Maria Teresa Ayres mariateresa@opovo.com.br
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