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16/05/2000 07/09/2012 - 08h00

Virgílio Távora, o Agente da Modernidade

O jornalista Jorge Henrique Cartaxo não exagera quando chama Virgílio Távora de "a maior expressão política do Ceará deste século". Ou de "o homem público mais completo que o Ceará produziu neste século".
Acervo O POVO
Detalhe da página do Jornal O POVO publicada em 16/05/2000
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Jornal O POVO, 16/05/2000

Autor: Jorge Henrique Cartaxo

 

O jornalista Jorge Henrique Cartaxo não exagera quando chama Virgílio Távora de "a maior expressão política do Ceará deste século". Ou de "o homem público mais completo que o Ceará produziu neste século". Não só por ter sido duas vezes governador do Ceará, duas vezes senador, deputado federal e ministro de Estado, mas, entre outras coisas, por ter sido o grande articulador da política cearense durante cerca de 40 anos. Vindo de uma família marcada pela liderança política, Virgílio presenciou ativamente as grandes transformações da política cearense e brasileira durante toda a sua carreira. Das articulações que derrubaram o presidente Getúlio Vargas à Constituinte de 1988. Do golpe militar de 1964 ao início do processo de industrialização pelo qual o Ceará atravessou durante o seu Governo. Pois foi este personagem a quem o O POVO dedicou-lhe páginas e páginas de uma entrevista histórica, publicada em abril de 1988, numa edição especial dos 60 anos de jornal. Sem querer, O POVO guardou para si o mérito de realizar a  última grande entrevista do então senador da República. Na reedição de hoje, as oito páginas de entrevista tiveram de ser reduzidas a estas duas. Mas já é uma boa medida para um passeio pela memória do histórico Virgílio.

Na tarde de 19 de junho de 1924, na ala direita do segundo andar do majestoso casarão da rua Visconde de Sabóia, esquina com a rua São Paulo, o médico e diretor do jornal "A Tribuna" - um diário que combatia o Governo de Artur Bernardes e pregava a revolução que viria acontecer em 1930 - se dedicava aos seus estudos diários em sua escrivaninha, enquanto o seu filho mais tagarela, então uma criança de cinco anos, dava voltas em sua cadeira tentando disputar com o pai, usando suas mãos ágeis e alegres, espaços e objetos que estavam sobre a mesa. O homem de 47 anos, com os cabelos prematuramente embranquecidos, era o dr. Manuel Fernandes do Nascimento Távora, cuja presença e o porte elegante marcariam a vida política do Ceará durante os 96 anos em que viveu. A criança tagarela daquela tarde bucólica em Fortaleza é hoje o senador Virgílio Fernandes Távora, que traz na memória a cena daquele dia da década de vinte como a lembrança do seu primeiro contato com o mundo e a realidade.

- Filhinho, o Quinzinho morreu.

A notícia trazida por dona Ana Cândida, sogra do dr. Távora, rompeu a calma familiar do casarão da Visconde de Saboya. "Quizinho" era a forma carinhosa como a família se referia ao jovem Joaquim Távora, que falecera naquele dia, no hospital da Força Pública de São Paulo, ao ser ferido comandando a Revolta de 1924. Depois de contemplar a expressão de angústia e tristeza estampada no rosto de seu pai, o menino Virgílio olhou para o retrato que adornava a parede em frente a escrivaninha do dr. Távora. Ali, numa ampla fotografia, estava a feição grave do tio Joaquim que jamais viria a conhecer. A cena de dor que marcara para sempre a memória da criança tagarela do solar dos Távoras era também uma cena política. Era um dos riscos da opção que o seu pai e tios haviam feito: a luta apelo poder, pela imposição das idéias através da generosa arte da política. Curiosamente, a mesma arte que o homem Virgílio Távora viria a se dedicar e que o transformaria na maior expressão política do Ceará deste século.

Hoje, com 69 anos, depois de ter sido deputado federal, senador por duas vezes, governador também por duas vezes e Ministro de Estado, Virgílio Távora, nessa entrevista, faz uma viagem na memória e fala de toda a sua vida política, vida que o consagrou como o homem público mais completo que o Ceará produziu neste século.

- Senador, o senhor teve uma formação basicamente militar, passou parte da sua juventude e início da maturidade no Rio de Janeiro como estudante no Colégio Militar, na Escola de Cadete e depois como oficial do Exército. Como o sr. iniciou a sua vida político-partidária?

VT - Após terminar o Curso da Escola Militar de Realengo, em 1938, meus contatos com Fortaleza, que já eram raros, praticamente se interromperam. Naquela época, envolvido que estava com a minha carreira militar, eu não tinha como objetivo retornar ao Ceará. Entretanto, um problema familiar me fez ir a Fortaleza para uma temporada mais longa. No início de 1947, minha avó materna, Ana Cândida, que, com tia Alice haviam sido a presença constante em minha infância, diante dos exílios de meu pai, adoeceu gravemente. Na ocasião cursava o último ano da Escola de Estado Maior e me foi concedida uma licença de 30 dias pelo comandante da Escola, General Tristão de Alencar Araripe, também um cearense, para que eu pudesse acompanhar a luta de minha avó, então com 84 anos, contra a morte. O País vivia a época da redemocratização com a queda de Getúlio Vargas e o fim do Estado Novo. Mas os Estados continuavam sendo governados por interventores, enquanto as eleições estaduais eram preparadas, nomeados pelo presidente recém-eleito, General Gaspar Dutra. No Ceará, os interesses inconciliáveis entre o PSD de Menezes Pimentel e o PR dos irmãos Moreira da Rocha (Acrísio, Crisanto e Péricles) levaram ao Palácio da Luz o coronel de Engenharia José Machado Lopes que depois viria a ter papel destacado, já como general de Exército, na chamada Companhia da Legalidade em 1961, visando à posse de João Goulart na presidência da República face à renúncia de Jânio Quadros. Machado Lopes e eu éramos amigos. Pertencíamos à mesma Arma, Engenharia, e dentro do Exército defendíamos uma revisão na Doutrina de Guerra então vigente na época. A nossa luta havia sido inglória no primeiro momento, mas com a ida de Castelo Branco para o Comando Direção de Ensino da Escola de Estado Maior vimos os nossos ideais triunfarem. Quando soube da minha presença em Fortaleza, Machado Lopes me convidou para um uísque-amigo em Palácio. Não me foi possível negar os laços de amizade que me prendiam ao Interventor, para o desespero e decepção do PSD e do PR, aos quais dava ele pouca atenção. Assim, involuntariamente, me transformei no condutor de todas as reclamações da UDN junto ao Palácio da Luz, quanto as arbitrariedades e abuso de autoridade praticados no Interior do Estado. A bem da verdade, é preciso que se diga que Machado Lopes nunca compactuou com qualquer espécie de violência. Desempenhando essa função, passei a ter um contato freqüente com os líderes Tavoristas e Saboystas - as duas correntes em que se dividia a UDN no Ceará. Na corrente ligada ao meu pai, verificava-se o surgimento de uma nova geração política que, inevitavelmente viria substituir a anterior formada por José de Borba, Miguel Gurgel, Torres de Melo, João Bezerra, Alfredo Barreira, dentre outros. Na nova geração, basicamente agrupada em torno do Movimento Estudantil Eduardo Gomes, pontificavam Aquiles Peres Mota, Alberto Nunes Leal, Luciano Magalhães e tantos outros. Destacavam-se também no movimento de renovação dentro da UDN as lideranças de Manoel de Castro, José Napoleão de Araújo, Edval Távora e Moacir de Aguiar. Fiz uma grande amizade que varou os anos com esses líderes.

- Como foi o seu ingresso nas atividades políticas no plano nacional?

VT - Se a política estadual estava conturbada, não menos se apresentava a nacional. Devastada na eleição presidencial de 1950, havendo perdido paralelamente governos dos Estados cuja chefia detinha - Minas Gerais, Bahia, Ceará, Paraíba e Piauí - a UDN se lançou numa oposição sem tréguas a Vargas, apesar de ter no Ministério da Agricultura um dos seus chefes mais destacados, João Cleofas de Oliveira. Foi a época áurea da chamada "Banda de Música da UDN", chefiada por Carlos Lacerda e integrada, entre outros, por Adauto Lúcio Cardoso, Aliomar Baleeiro, Bilac Pinto, Mário Martins, todos grandes tribunos mas com pouca ou quase nenhuma responsabilidade eleitoral. Uma parte do partido reagiu a este estilo criando o chamado bloco "Realista" no qual me integrei, que via como alvo básico não Getúlio Vargas, que em breve passaria, mas o PSD que, com Agamenon Magalhães, Nereu Ramos, Juscelino Kubitschek, Antônio Balbino, Pedro Ludovico e Vitorino Freire, caminhava celeremente para o domínio absoluto do País, só tendo como obstáculo temporário o PTB. Os trabalhistas estavam, entretanto, ligados ao destino de Vargas e Jango. Integravam o bloco realista Gabriel Passos e Magalhães Pinto, de Minas Gerais; Juracy Magalhães, da Bahia; Ruy Palmeira, de Alagoas; Leandro Maciel, de Sergipe; Dinarte Mariz, do Rio Grande do Norte; Dulcídio Monteiro, do Espírito Santo; Ireneu Bornhausen, de Santa Catarina; Vilas Boas, de Mato Grosso; João Cleofas, de Pernambuco; José Cândido Ferraz, do Piauí; Artur Santos, do Paraná; e eu, do Ceará. Este grupo representava 80% do eleitorado da UDN. Foi uma convivência difícil com a "Banda de Música", mas nas horas de votação o partido se pronunciava unido, dando uma prova de que acima dos interesses regionais estavam os do Brasil e os da UDN. Sem exagero, pode-se afirmar que o "Bloco Realista" permitiu a sobrevivência do partido e abriu caminho para a deposição de Vargas em 1954.

- Naquele momento o senhor participou também da criação da Petrobrás e, se não me engano, iniciou a sua luta pela eletrificação do Ceará...

VT - Foram duas atividades que muito me gratificaram. Em relação à criação da Petrobrás, tive que assumir uma posição muito difícil. Juarez Távora, meu tio e amigo, que fora alvo de uma campanha injusta e ensandecida, fruto do sectarismo ideológico que empolgara o País, defendia o monopólio do petróleo apenas para o setor de refino, abrindo a pesquisa, a exploração, o transporte e a comercialização para a iniciativa privada. A minha posição era diferente. Estava a favor do monopólio estatal do petróleo em todos os setores, com exceção da distribuição. Para tornar mais complexa a situação, o projeto-de-lei 1.516/52, originário da Presidência da República, que propunha a criação da Petrobrás, não atribuía caráter monopolista e na formação de seu capital era aceito o capital estrangeiro. No meio de debates que não levavam a nada, a não ser explosões de intolerância, o falecido deputado Amando Fontes e eu, apresentamos a emenda 63, que rejeitado em várias Comissões na Câmara veio depois a ser aprovado graças à visão do deputado Antônio Balbino, último relator da matéria naquela Casa e o articulador de um acordo geral para a aprovação do Projeto, que viria constituir-se no art. 1° da Lei 2.004, criadora da Petrobrás. Após tantas idas e vindas do Poder Executivo, a sanção do Projeto do Legislativo foi uma festa nacional e motivo de grande satisfação para mim, que vi bem-sucedida minha primeira ação parlamentar de vulto. Foi também nesse momento que iniciei a campanha pela eletrificação do Ceará, que o destino me levaria a concretizar, já como Governador do Ceará, em 1965. Em 3 de outubro de 1945, dia comemorativo do décimo-quinto aniversário da Revolução de 1930, o presidente Getúlio Vargas assinou dois atos que significaram a constituição da Companhia Hidroelétrica do São Francisco (CHESF), com a metade do capital, 400 milhões de cruzeiros, subscrita pelo Governo Federal. Simultaneamente foi expedido o Decreto 19.706, de outorga da concessão, pelo prazo de 50 anos, do aproveitamento progressivo da força hidráulica do Rio São Francisco, no trecho entre Juazeiro e Piranhas, com a finalidade de fornecer energia em alta tensão aos concessionários do serviço público na área compreendida por uma circunferência de 450 quilômetros de raio, centralizada na cachoeira de Paulo Afonso. Assim, estavam compreendidas na área de concessão da CHESF cerca de 34 municípios cearenses, do Sul do Estado.

- Senador, data também desta época o seu casamento com dona Luíza...

VT - Esta foi a melhor coisa da minha vida. Conheci Luíza ainda muito criança, após a morte de seu pai, dr. Luiz Moraes Correia, em 1934. Passados 15 anos de distanciamento, o destino fez encontrá-la de novo, já moça, quando de minha volta ao Ceará em 1948. Em meio a tanta gente desconhecida em Fortaleza, as conversas com Luíza eram como um refúgio para mim, então capitão e depois major do Exército. Linda, arredia, com a visão crítica que as órfãs prematuras possuem acerca das coisas e das pessoas, persuadi-la a casamento levou quatro anos. O casamento civil foi no apartamento do deputado Edilberto de Castro, à avenida Atlântica, acompanhado no dia seguinte, 5 de maio, do religioso. Chovia a cântaros. A solenidade se deu no majestoso Palácio São Joaquim, no Rio. O oficiante foi dom José Távora, bispo auxiliar do Cardeal do Rio e meu primo. Os padrinhos: José Magalhães Pinto, presidente do Banco Nacional e depois governador de Minas Gerais; o Ministro da Agricultura, João Cleofas de Oliveira; o Ministro da Fazenda, Oswaldo Aranha; o senador Olavo Oliveira, chefe do PSP do Ceará, meu adversário, porém amigo; o general Juarez Távora, que conduziu a noiva ao altar, entre outros. Representou o Presidente da República, Getúlio Vargas, seu chefe da Casa Civil, Lourival Fontes. Estavam presentes também o governador Raul Barbosa, toda a bancada federal do Ceará, o brigadeiro Eduardo Gomes, a Executiva da UDN, a maioria dos seus representantes na Câmara e no Senado e toda a Escola Superior de Guerra. Compreenda-se esse comparecimento em massa. Em disputa acesa entre a "Banda de Música" e "Realista da UDN", eu havia sido eleito, no mês anterior, Secretário-Geral da Executiva Nacional do meu partido e por outro lado cursava, junto com Ranieri Mazzili, Fernando Melo Viana e outros políticos que a memória não me socorre, a ESG. Tendo ainda como companheiros ilustres o general Henrique Teixeira Lott, futuro Ministro da Guerra de Juscelino; os almirantes Penaboto e Ernesto Araújo, que tanto marcaram a História do Brasil nos idos de 1955; os coronéis Ernesto Geisel e Golbery do Couto e Silva; o capitão-de-mar-e-guerra Basílio, futuro Ministro da Marinha; o brigadeiro Márcio, futuro Ministro da Aeronáutica, só para citar alguns dos muitos da elite das Forças Armadas que Getúlio, com engenhosidade "congelava" no que chamava zombeteiramente de "Sorbonne". O casamento constituiu-se num marco importantíssimo para mim. Até então, com a vida de solteiro, sem maiores preocupações que não as da política, morava em "Repúblicas" das quais a mais recente e de maior duração foi a da Urca, que dividia com Mauro Moreira, futuro diretor da Eletrobrás; Euclides Triches, futuro deputado e posteriormente governador do Rio Grande do Sul; Adavio Sabino, já falecido, e Franklin nestor Lima Serrano herói da FEB. No andar térreo da nossa "República" morava o Grande Otelo. Luíza, mulher muito expansiva, espirituosa, com hábitos morigerados e de sólida formação cristã, imediatamente conquistou a confiança e o afeto das senhoras dos meus colegas de Câmara dos Deputados. O apartamento 301 do n° 166 da Av. Princesa Isabel, em Copacabana-Leme, tornou-se um centro social e político, seja para a bancada do Ceará, seja para a da UDN Nacional.

- A morte de Getúlio gerou um quadro muito confuso na política nacional. O senhor naquele momento tentou reeditar no plano nacional o mesmo acordo que teve sucesso no Ceará, com a UDN e o PTB...

TV - O presidente Café Filho assumiu o Governo em 1954, apoiado apenas por parte do seu partido, o PSP, além do suporte militar da Marinha, Aeronáutica e de parte do Exército. Café Filho, por indicação de Juarez Távora, havia nomeado o general Henrique Teixeira Lott como Ministro da Guerra. Lott representava exatamente todas as idéias, dentro do Exército, daqueles que não haviam encampado a queda de Vargas. O Palácio do Catete era uma Babel. As únicas salas de trabalho ordeiro eram justamente do general Juarez Távora, chefe do Gabinete Militar. Afilhado de Oswaldo Aranha, amigo pessoal de João Goulart e Secretário Geral da UDN, fiz o humanamente possível para reeditar, na esfera federal, a aliança UDN-PTB cearense. Realizei várias reuniões no apartamento do deputado Edilberto Ribeiro Castro com Artur Santos, presidente nacional da UDN, e João Goulart. Com grande raiva da "Banda de Música" da UDN e sob as mais severas críticas de Carlos Lacerda, através da "Tribuna da Imprensa", desloquei-me duas vezes ao Rio Grande do Sul, a fim de ajustar os entendimentos e, ao mesmo tempo, como amigo, retirar Goulart de um isolamento odioso em que se encontrava. O plano, que para felicidade de Juscelino falhou, consistia em um pequeno partido lançar para presidente o nome de Oswaldo Aranha ou Juracy Magalhães. O PTB e a UDN, separadamente, o apoiariam, cada qual com seu candidato a vice próprio. Tive uma grande desilusão. Com receio da imprensa e da "Banda de Música", o comando da UDN, a começar por seu presidente, se negou ao acordo. Somava-se a isso a idéia, de parte da UDN, de lançar a quimérica candidatura de Etelvino Lins, que seria apoiado pela dissidência pessedista de Pernambuco, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Nesse meio tempo Café e Jânio tentam agrupar a dupla Juarez-Munhoz da Rocha (então Governador do Paraná). Mais uma frustração. Enquanto isso, Lacerda insistia na candidatura de Etelvino Lins, que não tinha nenhuma receptividade na opinião pública e cujo esvaziamento era evidente. Falhos os entendimentos, Jango se sente desobrigado e se atrelar à candidatura de Juscelino. Etelvino renuncia, e Juarez torna-se o candidato pela UDN-PDC. Tem início a campanha presidencial e o predomínio de movimentos militares de não conformidade com uma possível vitória de Juscelino e do Varguismo. Em várias oportunidades alertei Eduardo Gomes e Juarez que, se a aritmética vigorasse, a eleição presidencial estava perdida e de duas uma: ou concordavam em entregar o Poder ou preparassem seriamente um movimento armado. O que não se podia, principalmente o Brigadeiro Eduardo Gomes, era jogar toda uma juventude idealista em um precipício tipo 1935 às avessas. Juscelino, como esperávamos, ganhou as eleições. A insatisfação militar, principalmente na Marinha e na Aeronáutica, atingiu o climax. Chamado a me pronunciar pelos colegas de farda, solicitei aos responsáveis pela reação militar uma definição: reconhece-se a vitória que era o mais certo e justo, ou então se entrava com uma ação aérea fulminante, com base no aeroporto de Vitória, Espírito Santo, "fechando o tempo". Diz-me a consciência que sempre me filiei pela primeira alternativa: "ganhou, levou".

- Depois da campanha pela eletrificação o senhor enfrentou uma outra. Esta bem mais dura que foi a sua primeira disputa pelo Governo do Ceará.

VT - Sem dúvida bem mais difícil. Em 1958, bem no início do ano, o coronel Chico Monte nos procurou para discutir a sucessão de Sarasate, e foi feito um acordo em que eu seria o candidato ao Governo, representando a UDN, Olavo Oliveira, do PSP, seria senador e o PTB indicaria o vice, que nós acreditávamos seria Marcelo Sanford. Estávamos tentando reproduzir o mesmo acordo feito para a eleição de Paulo Sarasate. Carlos Jereissati, quando soube do entendimento, ficou uma fera. Ele achava que o acordo não daria certo. Dona Olga Barroso, esposa de Parsifal, então Ministro do Trabalho e genro do coronel Chico Monte, sempre me dizia: "Virgílio, o meu pai fez esse acordo com você, mas lembre-se que há muita pressão dentro do PTB para que o Parsifal saia candidato". Advertência à parte, aquela era a saída que tínhamos. Tudo corria bem, até que veio a seca. Uma das maiores da nossa história e onde maior foi a corrupção. Muito diferente dos tempos de atendimento no meu primeiro Governo. No meu tempo, pode ter havido reclamações esporádicas de um ou outro. Mas naquela época não: Havia não só discriminação, mas sim perseguição. Isto é, o cidadão não rezava na cartilha do chefe político local do PSD ao qual atribuíram criminosamente o comando do combate à seca, morria de fome. Como o DNOCS estava nas mãos do PSD, não precisa dizer mais nada. E mais, inopinadamente, o PTB faz uma coligação com o PSD em torno da candidatura de Parsifal. Do PTB, apenas o dr. Flávio Marcílio, então vice-Governador, honrou o compromisso. Foi uma campanha tremenda. Orgia de recursos e uma terrível pressão do Governo federal, então nas mãos do PSD e do PTB. Por outro lado, Sarasate, já com a saúde precária, não tinha muita disposição para responder na mesma moeda. O vice da minha chapa era o então Prefeito de Fortaleza, Acrísio Moreira da Rocha, e o vice-Governador que assumiria com a desincompatibilização do Sarasate, Flávio Marcílio, se candidatou a Prefeito de Fortaleza. De um lado, um mundo de recursos e de dinheiro, vindo das mais diferentes fontes. O prestígio do ex-Ministro do Trabalho, a quem os empresários eram devedores de favores e atenção. A repercussão, ainda negativa, da campanha pela eletrificação que havia causado um efeito devastador no Cariri e que em Fortaleza em nada ajudava. O trabalhismo em ascensão e com grande aceitação nas camadas mais pobres da capital. Tudo isso tornava muito difícil a situação da minha candidatura. Entretanto, em junho de 1958, numa festa social nos jardins da Universidade Federal, antiga residência de José Gentil, foi tentado um acordo, talvez o embrião da "União pelo Ceará", que aconteceria em 1962. Diante a situação calamitosa em que se encontrava o Estado, o candidato ao Governo seria o dr. Waldemar de Alcântara, a UDN ficaria com a vice e a senatória do dr. Olavo Oliveira seria respeitada. Mas os entendimentos não frutificaram porque o PSD não abria mão da sua senatória. Acordo entre cavalheiros, poucas pessoas disso souberam. Colocado o dilema de prosseguir a minha campanha, apelei para um empréstimo no Banco União. Mesmo assim, o dr. Parsifal foi o vitorioso.

E a sua passagem pelo ministério...

VT - Foi rápida. O gabinete não durou muito. Mas pude fazer algumas coisas. As idéias iniciais para a autarquização do DNOCS, da criação da Petrobrás, o Programa Nacional de Transportes... Para o Ceará foi uma época muito boa. As grandes verbas que possibilitaram, no ano de 1963, a construção da linha de Paulo Afonso para Fortaleza e a extensão da Rio-Bahia até Fortaleza foram colocadas por mim no orçamento do Ministério. Da mesma forma as necessárias para a construção do Porto de Fortaleza. Quando o dr. Tancredo resolveu renunciar para se candidatar a deputado federal por Minas, eu disse a ele que, com aquele gesto, o parlamentarismo estaria acabado. Mas, mesmo assim ele o fez. E deu no que deu.

- Após a campanha de Jânio e o seu período como Ministro da Aviação de Obras Públicas, do gabinete parlamentar, veio a sua vitoriosa campanha de 1962... Como o senhor encontrou o Ceará quando assumiu o Governo em 1962?

VT - O Ceará era muito pobre. Vivíamos de uma agricultura primitiva, sujeita a secas. Quando foi criada a Sudene, em 1959, havia projetos industriais para todo o Nordeste, menos para o Ceará. Ninguém queria aplicar o seu 34/18 - o desconto no imposto de renda - numa cidade em que a indústria, além do custo das instalações produtivas, tinha que arcar com as despesas para a construção de uma casa de força para gerar energia. E mais: nós não tínhamos um banco estadual, não tínhamos um distrito industrial. Não tínhamos um posto de digno deste nome. Em síntese: governar o Ceará se resumia a demitir, nomear e transferir o funcionalismo. E não estou falando mal dos meus antecessores, estou apenas descrevendo a realidade de então. O próprio Raul Barbosa, que fez um grande governo, lutou desesperadamente para romper esse cerco, mas carecia de instrumentos políticos para tal... A nossa riqueza era basicamente o algodão, que podia faltar há qualquer momento, face a uma seca, e uma incipiente indústria em Fortaleza, com a fábrica do Thomaz Pompeu, a do Audísio Pinheiro, Filomeno Gomes, têxteis. mas eram empresas que sobreviviam quase que às custas da complacência do Governo. Simplesmente porque a cidade não tinha uma estrutura. O nosso porto tinha apenas 130 metros com 3 de calado. O navio ficava próximo da bacia de evolução. Havia então o transbordo, através de guindaste a lenha, do cais para a Alvarenga, uma grande barcaça que levava as mercadorias para o navio. Assim, o tempo e o custo da alvarengagem quase que inviabilizavam qualquer exportação. Água, praticamente, só existia no Centro da cidade. Então, pouco tempo antes da eleição, praticamente assegurada a nossa vitória, fui ao Rio procurar o Hélio Beltrão e o Aldo Olvero, este subsecretário de Planejamento do Lacerda, e pedi a eles um plano de Governo. Eu queria levantar o meu Estado e não apenas melhorar a minha biografia. Surgiu daí o Plameg I. Hélio e Aldo estiveram várias vezes em Fortaleza. O plano já pronto, indicava uma série de medidas jurídicas preparatórias para a sua aplicação. Nesse momento tenho que fazer justiça ao dr. Parsifal Barroso. Foi extremamente correto e atendeu a todos os nossos pedidos.

- E os empresários, senador?


VT - Era uma dificuldade. Falar em planejamento, em governo planificado equivalia a fazer catequese. Fui à Associação Comercial, à Federação das Indústrias, à Facic para poder despertar esta nova mentalidade junto aos empresários.


- Senador, no meio de tudo isso o senhor viveu o golpe de 1964. Como foi a sua participação em tudo isso?

VT - Havia um clima muito difícil no Nordeste. As reuniões da Sudene eram muito tensas. O próprio Celso Furtado, nós sentíamos, estava sendo ultrapassado pelas esquerdas, cujo representante maior na Sudene era o Juarez Andrade, que tomava conta do Departamento de Agricultura. Era uma cabeça, mas de esquerda. Houve o levante dos sargentos em 1963. Amigo de João Goulart, na primeira vez que o encontrei falei sobre o assunto: Presidente, isso é um péssimo exemplo. Algo está lhe fugindo das mãos. Com o jeito que ele tinha, respondeu: "Isso não foi nada Virgílio. Apenas uma quartelada. O Assis Brasil tem o dispositivo militar na mão". Em outras oportunidades fui ao Laranjeiras. Voltei a dizer ao presidente que não via as coisas caminharem bem. Até que um dia sou abordado pelo Magalhães Pinto, Governador de Minas, que me esclareceu que nós caminhávamos para um confronto militar. Eu lhe disse que estava vendo tudo isso, mas que achava um quadro extremamente penoso. Afinal eu havia sido Ministro de Jango e ele estava sendo muito importante para a sobrevivência do Ceará como unidade. Logo depois desse meu encontro com o Magalhães, houve a revolta dos marinheiros e o famoso jantar do Automóvel Clube. Depois desses acontecimentos, no meu primeiro encontro com o Presidente, voltei a colocar o problema. Disse a ele que a situação era insustentável e que nós tínhamos que nos separar. Íamos para o confronto. Recordo-me, que enquanto eu fazia as minhas ponderações, ele me interrompeu e disse: "Olha, Assis, o que é que o teu colega Virgílio está dizendo". No dia 25 de março, no dia do primeiro aniversário do meu Governo e da implantação do primeiro poste da linha Fortaleza-Milagre que iria levar a energia elétrica para a Capital, fiz uma carta ao Presidente, onde agradecia o seu apoio ao meu Governo, mas voltei a destacar, mais uma vez, os problemas políticos que nos separavam. É bem verdade que dias antes, no Carnaval, o Castelo Branco passou por Fortaleza e com ele tive uma longa conversa. Eu já sabia que o movimento estava marcado para o dia 1° de junho. Eu estava em casa quando recebo um telefonema dele. O Castelo tinha ido a uma conferência muito difícil com o general Almero de Castro Neves, então Comandante da 10° Região Militar, que era legalista e foi fiel ao dr. Goulart. Um grande soldado. Castelo me chamou para uma conversa. Ele estava hospedado na casa do dr. Otávio Ponte, e para lá me dirigi de táxi. Expliquei claramente ao Castelo o que estava acontecendo no Ceará. Esclareci que ficaria ao lado dos meus companheiros. Ponderei, entretanto, ao general que a situação militar em Fortaleza poderia ficar delicada. O Comandante da Região era um legalista, o GO estava sem comando, portanto, o oficial que deveria assumir o comando das forças decisórias seria o major Egmont Bastos Gonçalves, com quem eu não tinha nenhuma relação pessoal ou qualquer condição de diálogo. Havia uma autonomia grande com colegas e todos eles sabiam que eu tinha sido ministro do Gabinete parlamentarista. Castelo me tranqüilizou: "Não tem problema, eu quero saber se você fica conosco".

- E o famoso "comando civil revolucionário" do Ceará...

VT - Eu sabia que as elites estavam se reunindo. Mas eu nunca tive nenhum contato com elas para isso. Primeiro porque eu parto do princípio de que revolução se faz com a força. Naturalmente precedido de uma preparação psicológica e de direcionamento da opinião pública. Eles que cuidassem disso. O meu papel era garantir a ordem e dar a força para apoiar o movimento. Em suma, desempenhar a função que havia acertado com Castelo.

- Como o senhor soube do movimento no dia 31 de março?

VT - No dia 31 estava havendo um jantar no Palácio. Toda a Assembléia e todo o secretariado estavam reunidos na residência oficial para uma comemoração do primeiro aniversário do Governo. Quando recebo um telefonema do dr. Magalhães. As ligações eram muito ruins, e não consegui falar com ele naquele primeiro momento. Logo percebi que alguma coisa havia acontecido no Sul do País. Algum tempo depois recebo via rádio confirmação da revolução. Não foram fáceis os primeiros dias. Eles queriam que eu lançasse uma proclamação atacando rudemente o dr. Goulart. Neguei-me absolutamente, eu não faria uma coisa daquelas. Passei um telegrama ao general Castelo Branco, dizendo-lhe que havia cumprido o compromisso.

- E depois do seu Governo?

VT- Embora não tenha tido participação decisiva na minha sucessão, saí altamente recompensado do esforço feito em prol da nossa terra. Inútil também enfatizar, de todos conhecidos que é, a imensa obra social desenvolvida por Luíza. Por 15 dias ininterruptos despedimo-nos (ela e eu) do Governo inaugurando obras em todos os quadrantes do Estado. Candidatei-me, forçado, a deputado federal, já que não me fora posto à disposição lugar para disputar uma Senatória. De longe, o mais votado, eleito apenas só com votos da Capital. Amigo de José Bonifácio (Presidente da Câmara) e Gilberto Marinho (Presidente do Senado), ex-chefe do Cel. Manso Neto, Chefe de Gabinete do General Garrastazu Médici (Ministro Chefe do SNI), dediquei toda minha atividade em clarear as nuvens que se erguiam entre Congresso e Planalto e que deram origem a edição do AI-5. Baixado este, diz-me a consciência que minhas relações com Rondon Pacheco e Gen. Jaime Portela foram valiosas no sentido de evitar algumas cassações injustas.

- Como continuou, após 16 anos, a obra do seu primeiro Governo?

VT - No primeiro Governo, como disse, lancei a base para o desenvolvimento do Estado. No segundo, lutei indormidamente para tornar realidade tal objetivo, tendo como metas: mudança do perfil da economia cearense; promoção social das comunidades, grupos e pessoas carentes; reestruturação administrativa. Constitui-se o Ceará no grande pólo têxtil de todo Nordeste e um dos maiores do Brasil; entrou nossa terra no grupo dos estados siderúrgicos com a instalação da eliminação de aços planos, quintuplicando-se o abastecimento de água da Capital; deu-se vida ao Distrito Industrial (hoje Maracanaú). O Ceará chegou a ter a segunda rede rodoviária asfaltada do País; todos municípios foram ligados a Fortaleza por telefonia e servidos  de sinal de televisão. O Centro Administrativo foi implantado. Os programas sociais, a cargo de Dona Luíza - cargo de abnegação sem par, serviram de exemplo a outros Estados. Longa seria a enumeração.

- Então o senhor voltou ao Senado...

VT -  Eleito senador novamente com votação consagradora, vi logo após a ascensão ao Palácio da Abolição de meu sucessor fecharem-se-me e aos amigos que me quedaram fiéis as portas do poder. Sem comentários. Líder do Governo (1983-84) para assuntos econômicos novamente tive como um dos pontos maiores de minha vida parlamentar ao ser Relator da Comissão Mista que apreciou o Projeto do Executivo do qual se originou a Lei da Informática. Agora, como Constituinte: Relator Auxiliar da Comissão de Sistemização, Coordenador do chamado Grupo dos 32, que tem desempenhado papel fundamental de equilíbrio para a feitura da nova Carta magna, sinto-me compensado, pelo reconhecimento generoso, mas confortador, do muito que tenho auxiliado os trabalhos da Assembléia Nacional Constituinte.

Tradição
Os Távoras no Ceará tiveram sua origem no Vale do Jaguaribe, no século passado. Numa pequena fazenda daquela região, Joaquim Antônio do Nascimento e Clara Fernandes Távora constituíram uma família de 15 filhos, onde se destacariam, posteriormente, Juarez Távora, um dos líderes do tenentismo no Brasil; Joaquim Távora, que faleceu em 1924, em São Paulo; e o dr. Manoel Fernandes Távora, líder da Revolução de 1930 no Ceará, deputado estadual, deputado federal, interventor e senador da República.

Estudo militar
Virgílio Fernandes Távora nasceu em 1919 de uma família de força política no Estado. Filho de Manoel Fernandes Távora, Virgílio cursou o Colégio Militar em Fortaleza. Ainda adolescente, toda a família se mudou para o Rio de Janeiro. O pai elegera-se, em 33, deputado Constituinte. Virgílio transferiu-se para a mesma escola na então capital da República.

Com Luíza
Luíza Távora foi a única e grande paixão de Virgílio Távora. Basta perceber as palavras dedicadas a ela em sua entrevista. Os dois se conheceram ainda na adolescência. No reencontro 15 anos depois, o imediato casamento, que durou até a morte de Virgílio, em 1988. Só três anos depois do casamento, Virgílio já assumia um lugar na Câmara Federal, como deputado. Foi seu primeiro cargo político.

Liderança dos coronéis
Como conta na entrevista a Jorge Henrique Cartaxo, o jovem Virgílio Távora se manteve eqüidistante da política, dedicando-se exclusivamente à carreira militar. Essa postura, no entanto, foi quebrada no final da década de 1940, quando o pai dele lhe escreveu, fazendo um apelo para que retornasse ao Ceará, onde deveria assumir a liderança política que os Távoras haviam consolidado no Estado. A partir de então, seu nome foi presença destacada. Ele foi o grande líder dos chamados coronéis, que dominaram a política cearense durante anos. César Cals (foto) e Adauto Bezerra faziam parte das lideranças. Para muitos, foram  tempos de muito apadrinhamento político e eleições com cartas marcadas.

40 anos de política
Do final dos anos 40 até sua morte, em 1988, foram 40 anos de vida pública na política. Virgílio foi deputado federal, duas vezes senador, governador também por duas vezes e ministro de Estado, durante o governo de João Goulart, quando o parlamentarismo foi adotado no País. Apesar de ter sido ministro de Jango, Virgílio apoiou o golpe militar de 64, liderado por Castelo Branco (foto). Mais tarde, Virgílio e Castelo Branco romperam.

Homenagem do O POVO
A publicação desta entrevista com Virgílio Távora - abril de 1988 - coincidiu com uma série de comemorações e edições especiais dos 60 anos de fundação do O POVO. Na ocasião, um júri elegeu Virgílio a "Personalidade do Povo" daquele ano, concedendo-lhe a Medalha Albanisa Sarasate. Na foto acima, o presidente do O POVO, Demócrito Dummar, cumprimento Virgílio na solenidade que o homenageou.

Maria Teresa Ayres mariateresa@opovo.com.br
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Jose Maria Feijão 17/09/2012 14:37
Realmente, Virgílio Távora sem dúvidas, ainda pode ser considerado o maior governador deste século, esta homenagem é mais do que justa por tudo que fez pelo Ceará. Cruzou o Ceará de norte a sul e de leste a oeste trazendo energia elétrica, estradas, comunicação, água, agropecuária, educação e saúde,
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